— Ó pá, já pareces um Velho do Restelo!

Sim, esta é uma expressão usada quando queremos transmitir que alguém é resistente a qualquer mudança.

Mas, afinal, quem era mesmo Velho do Restelo? Existiu? Quem seria?

O Velho do Restelo é uma das personagens d’Os Lusíadas, do grande Camões. Teremos de ir até ao Canto VI. Esse Velho representa a voz da razão contra a ambição desmedida, contra esses que ambicionam partir em expedição para a Índia. As naus de Vasco da gama despediam-se de Belém quando surge um homem com a preocupação de fazer os avisos necessários a quem naquele dia partia para o alto mar. A sua voz ganhava peso, e ele manifestava sem medos a sua oposição a estas viagens. Refere que os homens em questão são vaidosos, audazes e corajosos, mas que é a cobiça e o anseio de glória, que os fazem partir nas aventuras ultramarinas.

A manifestação deste velho mostrava a oposição ao expansionismo bem como às navegações referindo que eram os interesses e os proveitos da burguesia e da monarquia que impunham estas perigosas viagens.

Verdade verdadinha, Camões nunca usou esta expressão Velho do Restelo, mas sim «velho d’aspeito venerando». Todavia, como se sabe que o discurso desse velho foi proferido na partida de Vasco da Gama, estamos a falar, então, do Restelo. Hoje, será a conhecida por Belém, em Lisboa. O nome é alterado aquando da edificação do Mosteiro de Santa Maria de Belém, mais conhecido por Mosteiro dos Jerónimos, mas o nome Restelo sobrevive um pouco mais a poente no atual bairro com esse nome.

Despeço-me com amizade até daqui a 15 dias.

Texto de Ana Salgado
Ilustração de Sérgio Neves

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