Tenho tantos assuntos para abordar que me sinto confuso, atrapalhado e desorganizado. Pensei em fazer vários textos, mas são assuntos que fazem sentido neste momento e talvez mais tarde possam não vir a fazer ou estarem fora de tempo.
Então 'bora lá. Quero abordar o ensino português e a culpa do estado naquilo que deveria ser a educação das próximas gerações; a nova exposição presente no MAAT que vai estar disponível até setembro, "Interferências"; e o coletivo do qual faço parte, o KRIATIVU.
Desde a abertura do KRIATIVU no bairro do Armador em Chelas, temos lidado com muitas crianças que, diariamente, utilizam o nosso espaço - na sua maioria - para o uso de bicicletas. É obrigatório o preenchimento de uma ficha, para que todos tenhamos um termo de responsabilidade que deve ser preenchido e assinado pelos pais.
Logo aí começaram os problemas, porque muitas das fichas vinham mal preenchidas, mas o maior problema põe-se quando as crianças frequentadoras da escola - como é normal nestas idades, algumas na primária, outras do segundo ciclo - têm de requisitar as bicicletas. É necessário escrever o nome, o nome da bicicleta e as horas. E, para meu espanto, muitas dessas crianças do meu bairro em Chelas, só sabiam escrever o seu próprio nome e mal. No espaço, todos os dias, lidamos com crianças que estão na escola, passam de ano, mas não sabem ler nem escrever, é algo que não compreendo e não encontro explicação.
Diariamente fazemos de professores - alguns dos miúdos só podem requisitar as bicicletas depois de escreverem algumas frases ou de lerem alguns textos. Deixo aqui este testemunho para uma reflexão e quero acrescentar que, tendo um sistema educativo que não muda muita coisa há décadas, não podemos esperar muito mais.
Existindo uma lei, uma obrigatoriedade ou algo do género com algumas crianças, a de as passarem de ano independentemente do seu aproveitamento, penso que deveriam existir mínimos como saber ler ou escrever um simples texto. Ter uma criança no 5º ano que não sabe ler ou escrever é, para mim, ridículo, deixa-me envergonhado e sem palavras.
"INTERFERÊNCIAS", a exposição que já me fez ir ao MAAT duas vezes e penso não ser a última, porque da forma como tenho espalhado a mensagem, acredito que ainda vou acompanhar amigos em visitas.
Com curadoria de Alexandre Farto, António Brito Guterres e Carla Cardoso, esta exposição coloca na mesa vários assuntos que eram debatidos em outros cenários e locais, com diferentes olhares e visões da cultura urbana na grande Lisboa. Temos aqui um trabalho que liga vários bairros, várias pessoas e dá voz e força para a solução de problemas vividos por milhares de pessoas neste país.
Do 25 de Abril aos combatentes africanos no Ultramar, as barracas de madeira, para as mudanças para os prédios, todos deveriam ver o “INTERFERENCIAS”, mas é uma obrigação para qualquer pessoa que vive ou viveu num bairro social. São vários artistas com várias histórias que, de forma muito directa ou não, discutem assuntos importantes que, em muitos casos, estão debaixo do tapete: capas de jornais racistas, fake news (Arrastão) ou a morte de Alcindo Monteiro.
Fui convidado para uma talk no MAAT que abordava as comunidades e os museus, uma discussão importante que me deixou pensativo. Deveríamos ir mais aos museus e às galerias de arte. Talvez o interesse seja maior vendo coisas com as quais nos identificamos e entendemos. Ainda há a ideia de que os museus são locais chatos e para gente que lê 100 livros por ano, mas não. Parece que, em Portugal, a realidade está a mudar um pouco e começa a haver uma valorização e respeito pelos artistas de cultura urbana.
Vamos dar mais cor aos museus, ter artistas e público das zonas consideradas sensíveis em Lisboa.
KRIATIVU. Tão pouco tempo de vida, mas já dá muito que falar. O KRIATIVU, apesar de ser um espaço de desenvolvimento da criatividade, é também um coletivo de pessoas que criam, seja o Wilson nos ténis, o Tibunga nas redes sociais ou o Airton na comunicação. Os dias no nosso espaço passam a correr, acordamos segunda para ir trabalhar e, quando piscamos o olho, já estamos na sexta. Fizemos tanta coisa que claramente que, a cada semana, nos sentimos mais ricos.
Criamos e inventamos tanta coisa… o que me faz dizer que, com vontade e condições, nos bairros da grande Lisboa, o céu é o limite. Resolvi escrever sobre este projeto porque vinha no carro a ouvir uma entrevista que o Wilson (do nosso coletivo) deu ao programa “Cidade Invisível" da RTP, que me deixou orgulhoso. Venho de muitos projetos e sei quão difícil é ter uma equipa em que todos os jogadores jogam bem nas suas posições, juntando isto a um network sem fim. As oportunidades surgem todos os dias a todo o momento. De facto, este projeto ainda vai dar muito que falar e, neste momento, só gostaria que os dias tivessem 48 horas. Mesmo assim ia ficar muita coisa para fazer.
Aproveitem bem o tempo e vamos dar uso à criatividade!!!
-Sobre Nuno Varela-
Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas. Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.