Custódia Gallego, atriz, é natural de Beja. Começou por estudar Medicina em Lisboa, mas percebeu que o seu caminho passava pela representação. Assim, abandonou o curso de medicina e ingressou na Escola Superior de Teatro e Cinema. Já participou em filmes e tem uma presença regular na televisão.


Num jardim do Júlio de Matos, perto de um restaurante, encontramos um banco verde e recatado. Ainda pensamos em jogar sentadas na relva, mas o banco pareceu ser o sítio certo para o jogo da Pergunta da Sorte com a Custódia. Sentámo-nos, expliquei as regras do jogo e começamos a jogar. A Custódia lança o dado e avança 5 casas. Fomos parar à casa da Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: A medicina continua a ser um gosto ou foi um curso tirado por obrigação?

Custódia Gallego (C): Não foi um curso tirado por obrigação diretamente. Ou seja, na educação há uma indução para a obrigação de tirar um curso superior, porque melhora a tua performance profissional no futuro ou te dá mais garantias de trabalho no futuro. Nesse sentido sim, fui educada para isso. Mas eu escolhi medicina porque queria. Depois a vontade de ser atriz e a formação na área da representação foi acontecendo. Escolhi porque era o que me estava a fazer mais feliz e o que achava que queria. Mas a medicina continua a ser um gosto. É a ciência mais desenvolvida acerca do que é o animal humano  e na área do comportamento também, que me diz mais diretamente respeito.

Andreia Monteiro (A): Muito bem, agora é só voltar a lançar o dado.

Desta vez, o dado faz-nos avançar 2 casas e leva-nos à casa Carreira, onde as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional da artista.

Carreira: O que gostavas de fazer que ainda não tiveste oportunidade de concretizar?

C: Tenho tanta coisa. Parece absurdo, mas eu tenho imensas coisas. Tenho três ou quatro textos de autores ditos clássicos que eu ainda gostava de fazer. Alguns ainda não fiz, porque acho que a maturidade e idade me vão trazer mais maturidade para os fazer e outros porque ainda não me dei essa oportunidade, ainda não investi nisso. Mas tenho três textos ditos dos clássicos. Um Shakespeare, um Harold Pinter, que eu gostava de fazer.

A: Qual é o título do texto de Shakespeare? Podemos saber?

C: Acho que não me apetece dizer.

A: Ok (risos), é para não dar má sorte.

C: Não é por isso. É porque são dos tais projetos que eu tenho dentro das caixinhas. São projetos meus. Não são aquelas outras coisas que me propõe e querem o meu trabalho para aquilo e eu aceito ou não. Estes são os que eu quero fazer e que se ninguém me convidar eu inicio essa produção. Nesse sentido, ao comunicar com os outros essa minha vontade parece que essa minha vontade sai do meu controle, ou da minha caixinha. É simbólico.

A: Então não se vai dizer, claro que não!

C: Mas já te disse os autores. Um é Shakespeare, outro é do Pinter e tenho uma ainda mais antiga, que implica muito mais trabalho dramatúrgico e eu ainda não tive tempo para isso e preciso de ajuda. É um trabalho dramatúrgico sobre a poesia portuguesa de grandes autores portugueses como o Jorge de Sena, epah imensos! Sempre achei que esses autores contavam histórias e, nesse sentido, podem servir dramaturgicamente para mim e é uma linguagem completamente diferente da coloquial.

A: Sim, sim, é muito interessante.

Seguimos para a próxima e avançamos 5 casas.

C: Então? Estás a ver, isto dá sempre os mesmos números. Ahhhh isto é o quê?

A: É o Sê Criativo!

O Sê Criativo é a casa que lança um desafio que a convidada tem de resolver de forma criativa.

C: Aiiii tenho de me levantar?

A: Não sei, depende do que calhar na carta.

Sê Criativo: Pensa no teu número da sorte. Sem falar, conta-nos uma história em x passos.

C: Olha, não tenho um número da sorte. Sou supersticiosa q.b. Tenho aquelas parvoíces como não passar debaixo de escadas, por exemplo. Mas não tenho muitas. Aos outros chamo rituais, que é aquelas coisas que se faz nas peças de teatro. Digo que são rituais, porque depende do que acontecer desde o primeiro ensaio. Há aqueles cruzamentos que acontecem desde o primeiro ensaio e que eu faço por que aconteçam durante todos os dias até ao final do espetáculo. São superstições, mas não propriamente. Por isso não sei o que te dizer.

A: Podemos escolher um número qualquer. Pode ser o que calhou no dado ou qualquer outro.

Vê a história que a Custódia nos contou em 5 passos neste vídeo:

A: Queres explicar o que fizeste? Acho que deu para perceber, mas de qualquer forma…

C: Concentrei-me um bocadinho no facto de ser 5 passos. Por isso, concentrei-me logo na história com um princípio e um fim. Pensei no que estava a sentir. Estou a sentir-me fechada, mas quero sair disto. Depois usei o meu corpo pelas extremidades, porque quando se sai de um buraco o melhor é usar as extremidades. Depois a liberdade deu-me uma certa overdose (risos).

A: Ficou giro, eu gostei.

O dado volta a rolar e manda-nos avançar duas casas, indo parar ao número 18, onde nada acontece. Voltamos a lançar o dado e voltamos a avançar duas casas.

C: Estás a ver?

A: Realmente isto está estranho.

Volta a calhar uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Gostas mais de fazer televisão ou cinema?

C: Gosto de fazer o melhor trabalho. Ou seja, se surgir essa hipótese, o melhor trabalho de cinema ou o melhor trabalho de televisão. Evidentemente, como se faz, no geral, menos cinema intuitivamente daria mais atenção àquilo que me tinham proposto de cinema. Mas ia medir a qualidade de cada um dos trabalhos. Porque o estímulo é diferente. Fazer televisão estimula-te uma estratégia de construção do teu trabalho, o cinema estimula-te outra. No meu entender não são comparáveis. Só as compararia, sem atender à qualidade do trabalho, se já estivesse há muito tempo a fazer televisão e fico farta, ou vice-versa. Chega a uma certa altura que me apetece brincar com outro brinquedo.

A: Faz todo o sentido.

É altura de o dado ditar para onde vamos a seguir. Volta a sair o número 2.

A: Ai, tu queres ver que está mesmo viciado?

C: Eu acho que pode ter a ver com o tabuleiro estar no banco. Vá, eu lanço outra vez e não pode sair nem 2, nem 5.

Mais cedo tivéssemos falado, mais cedo conseguíamos sair daquela dualidade. Avançamos 3 casas e vamos parar ao Pessoal, onde as cartas fazem perguntas sobre a vida pessoal da artista.

Pessoal: Qual o primeiro sonho que te lembras de ter tido?

C: O primeiro sonho, no sentido do primeiro desejo que eu me lembro, é de ficar forte. Já não lembro quantos anos tinha, 12, 11 ou 10, não me lembro. Lembro-me de verbalizar isto. Ficar forte o suficiente para poder viver sozinha.

A: Portanto, um desejo de independência.

C: Pois, mas lembro-me desta frase.

Parece que em vez de andarmos para a frente, andámos de arrecuas. Não faz mal! Compensamos partindo da próxima casa Pessoal. Avançamos 4 casas! E vamos parar a outra Pessoal.

Pessoal: Conta-me uma coisa que ainda não tenhas revelado publicamente.

A: Pode ser… tenho cinco meias na minha gaveta (risos).

C: Finalmente estou a sentir-me velha, porque dou comigo a responder a perguntas dos mais novos como coisas muito certas. Já dei por mim a pensar, fogo! Agora é que estou mesmo velha. Daquelas dúvidas que se têm numa conversa e eu nem respondo, porque a resposta que eu tenho é a certeza absoluta que vai acontecer isto.

A: Se te serve de consolo, às vezes também tenho um bocadinho essa atitude.

C: Neste caso não serve, porque me impede de dialogar, porque já tenho a solução e porque às vezes tenho mesmo muita certeza do que estou a pensar. Tem a ver com a experiência ou aquilo que já vi, não sei.

Volta a lançar o dado e avançamos cinco casas. Desta vez não vamos fazer nada sobre isso. Vamos parar ao número 28 onde nada acontece. O dado volta a rolar e avançamos duas casas indo parar a uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Qual foi o trabalho que mais gostaste de fazer até hoje?

C: Aquele que estou a fazer agora.

A: Portanto a melhor experiência é sempre aquela que estamos a viver?

C: Agora! Como deves calcular já me fizeram essa pergunta quatrocentas e mil vezes e, a partir de certa altura comecei a pensar que podia responder de maneira diferente. Mas, olhando para todos os trabalhos, não sou capaz de dizer qual foi aquele que mais gostei de fazer. Sou capaz de dizer qual o que foi mais gratificante em termos de público, porque percebi que as pessoas percebiam o que eu estava a fazer. Mas isso não é o trabalho que eu gostei mais. Posso dizer aquele que tinha muita expetativa, mas depois não gostei. Mas não é o que eu mais gostei. O que é mais verdadeiro é que este que estou a fazer agora é o que me ocupa completamente a cabeça e o que eu estou a gostar mais.

A: Porque é o que está mais vivo e também o acumular da experiência dos outros.

C: Pois, não sei.

Agora o dado manda-nos avançar 1 casa e temos outro Sê Criativo.

Sê Criativo: Tens aqui 8 formas. Podes usá-las e repeti-las da maneira que quiseres e não tens de as usar todas. Em dois minutos cria uma imagem artística.

Composição com 8 formas feita pela Custódia Gallego

A: Queres dizer alguma coisa sobre essa composição?

C: Não é preciso explicar. É como se fosse um pintor e tivesse de explicar a minha pintura (risos).

A: Claro, isso não se faz!

Voltamos a lançar o dado e calha um número novo! Andamos seis casas e vamos parar a outro Sê Criativo.

C: Opah…

A: Vá, vamos lá.

Sê Criativo: Um amigo teu está triste porque partiu uma unha. Que playlist lhe recomendarias? (sugere, no mínimo, 5 músicas).

C: Não sou capaz, porque não decoro as coisas. Como é que se chama aquela cantora? Estás a ver, não consigo decorar nomes! Vês o Got Talent ou a Voz da América? Aquela cantora… a Alicia Keys! Quaisquer cinco músicas dela. São estimulantes para pensar noutras coisas sem ser em unhas. E é uma música que não é completamente erudita, mas não é só pop. Gosto da voz dela, é grave, é boa.

Depois de um desafio mais calminho avançamos 1 casa que nos leva a mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Ainda te assustas ao que te foge ao controle ou já lidas melhor com isso?

C: Não, cada vez mais. Ao longo da minha vida fui vendo, ao contrário do que era a minha expetativa, que cada vez há mais coisas que podem fugir ao meu controle. Isto pode ser uma coisa positiva, porque eu analisei as coisas todas e como sou mais velha, mais madura, mais inteligente, mais experiente tive a capacidade de analisar que afinal as coisas que fogem ao nosso controle não têm a ver com não sermos capazes de controlar, mas sim por haver muitas coisas.

O dado volta a ditar o próximo passo e faz-nos avançar 3 casas, até ao Pessoal.

Pessoal: Se amanhã pudesses largar tudo sem quaisquer problemas, o que farias?

C: Dava a volta ao mundo, quantas vezes eu tivesse tempo.

A: E era uma viagem de comboio, avião?

C: Tudo! Gosto de tudo. Eventualmente dispensaria o avisão, por várias razões. Tenho medo, uma daquelas coisas que não tem nada a ver com o meu controle, é o pior que há para eu viajar. Também porque em todos os outros meios de transporte dá para veres o caminho de alguma maneira e vais vendo parte da paisagem. Todos, menos o avião.

A: Também o que tira mais experiência, eu acho.

C: Pois, porque se faz muitos quilómetros sem veres nada do que há nesses quilómetros.

A: Sim. E não há a experiência de ires no comboio e conheceres a pessoa que vai ao lado.

C: Sim! Parar quando te apetece.

Seguimos em frente embaladas com a vontade de viajar e andamos 2 casas que nos levam à Carreira.

Carreira: O que menos gostas de fazer na tua profissão?  

C: Cumprir marcações. Sabes o que é?

A: Ter de estar em determinado sítio numa cena?

C: Sim. Se me aperceber que tenho de cumprir marcações e não usá-las para eu criar a minha marcação, por exemplo em cenas que são mais coreografias, isso é o que me custa mais cumprir.

Adiante e sem marcação definida, o dado manda-nos avançar 3 casas. Mas estamos tão pertinho de uma casa que não saiu ainda… Vamos fingir que saiu o número 4 que nos leva a uma Pergunta Rápida, onde temos cartas com perguntas de sim ou não que têm de ser respondidas sem pensar muito.

Pergunta Rápida: Rir ou sorrir?

C: Rir. É sempre mais desbloqueador.

Já perto do final, avançamos 3 casas indo parar ao Pessoal.

Pessoal: Qual é a primeira coisa que fazes ao acordar? E a última ao deitar?

C: Fazer a agenda do dia, para acalmar. A última ao deitar é aconchegar-me no sítio onde vou dormir. Arranjar a melhor posição, o melhor cantinho, a melhor relação.

A: Que é uma coisa muito do teatro, não é? A melhor relação do corpo com o espaço.

C: Se estás a dizer… não tinha pensado nisso. Mas sim.

Temos ainda direito a mais uma casa, a Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Fora dos ecrãs quem é a Custódia Gallego?

C: Não consigo responder, parece que estou aqui a fazer psicoterapia (risos). Sou uma mãe, companheira, amiga, pessoa, mulher com confiança de que estou a fazer coisas neste sítio. Ou seja, não estou triste comigo.

A: Isso é bom!

C: Sim.

Voltamos a lançar o dado, que nos manda avançar 5 casas, e sim! Chegamos à casa Gerador. Esta é casa final do jogo, onde o entrevistado responde a uma pergunta do convidado anterior e deixa uma pergunta para o próximo. Ainda se lembram da pergunta do Ivo Canelas? “Qual foi o último sítio, a última vez onde te sentiste 3 centímetros acima do solo? Pode ser música, pode ser livros, pode ser uma esquina com sol. Esse último sítio”. Podes rever a pergunta do Ivo, também, aqui.

Vê o vídeo em baixo para saberes qual a pergunta que a Custódia deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Vemo-nos em breve! ;-)

Entrevista por Andreia Monteiro