Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Jorge Barreto Xavier

A rainha

Faz estranho breu nos vastos aposentos, apesar dos candelabros altos com robustas velas e de…

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Faz estranho breu nos vastos aposentos, apesar dos candelabros altos com robustas velas e de candeeiros de mesa, com chamas rutilantes. Na antecâmera, os guardas adormecem de pé, agarrados às armas. Aias cobrem-se de torpor profundo, criadas sem repouso encostam-se umas às outras e o mordomo, nervoso, espera, em vão, pelo sono real.

Diz-se que estava sob estranho agoiro, ou que a amante favorita do rei lhe lançara um sortilégio. A verdade é que não havia noite em que dormisse. E não só atravessava o tempo noturno insone como com ela arrastava a corte, que sofria entre a necessidade de cortejar e a precisão de dormir.

Distraía-se  com os mais singulares modos.

De há um mês a esta parte, era hábito entreter-se com um punhal, uma adaga ou espada, conforme o impulso.

Há poucos dias, tinha esventrado uma servente suspeita de ter comido os seus doces florais preferidos. Aberta a pele, penetradas as entranhas do umbigo para baixo, expostas as vísceras, concluiu-se que a dita  não era culpada – só se observou a existência de côdeas e algumas réstias de couve lombarda meio digeridas.

Hoje, chama o secretário do  tesouro e, vagamente aborrecida, brande a espada e corta-lhe a cabeça. Depois diz: é para aprenderes.

Ele, de gatas, anda com as mãos tacteantes à volta do chão, entre poças de sangue e alguns desperdícios da libação real e lá encontra o adereço. Agarra no órgão decepado e ajusta-o no pescoço.  Um colar rubro no sítio da junção, lembra o fio apurado da folha, antes do tempo absorver a cor e até a luz.

A rainha não fica contente. Chama-o para perto, entre os pajens. Ele vai. E ela corta-lhe a mão direita. Depois diz: é para aprenderes. A mão solitária e autónoma, alada por breves instantes, tomba sobre o real cesto das frutas.

Ele, com a mão esquerda, resgata o apêndice, entalado entre um ananás e duas ameixas. Canhoto e hábil, encaixa pulso em pulso, e o lado direito volta a dar simetria.

A rainha está furiosa. Chama-o e corta-lhe as duas pernas. Depois diz: é para aprenderes. Os pilares de qualquer andamento ficam, inertes, a jorrar vermelhidão no mármore branco, pela escadaria que leva ao trono.

Ele, apoiando-se nos músculos braçais, arrasta-se pelos degraus e liga, sem erro, esquerda a esquerda, direita a direita. Cansado, deita-se, os siameses lambem-lhe as feridas.

A rainha fica fora de si. Chama-o, grita, vocifera. Ele vai.

E ela corta-lhe os sonhos.

Ele deita-se de barriga para baixo num ressalto do patamar e, agora, sem mais motivos, finalmente, adormece.

A rainha, satisfeita, estende o dedo guloso e indica uma papaia. O pajem, com os olhos no chão, entrega-a de bandeja.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

10 Março 2026

Depois vieram os trans

24 Fevereiro 2026

Protocolo racista, branquitude narcísica

10 Fevereiro 2026

Presidenciais e Portugal – algumas notas

27 Janeiro 2026

Museu dos sapatos

13 Janeiro 2026

A Europa no divã

24 Dezembro 2025

Medo de assentar

10 Dezembro 2025

Dia 18 de janeiro não votamos no Presidente da República

3 Dezembro 2025

Estado daquilo que é violento

26 Novembro 2025

Uma filha aos 56: carta ao futuro

19 Novembro 2025

Desconversar sobre racismo é privilégio branco

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0