As bolhinhas

Sou a favor da tomada de espumantes nacionais em qualquer dia do ano, e generalizando para outras lides, fugindo ao uso habitual como aperitivo ou substituindo os cocktails de final de tarde.

Bebemos normalmente espumante em Portugal para comemorar a entrada do ano novo ou em casamentos e outros dias de festa.  Falta generalizar esse consumo a todas as ocasiões.

Para que isso aconteça temos de garantir a boa camaradagem entre o espumante e alguns pratos tradicionais da nossa cozinha, tirando da cabeça a ideia que este tipo de vinhos só serve para “fazer saúdes” . Nunca esquecendo que se fazem espumantes brancos, rosados e até tintos.

Leitão assado, lampreia, pratos de pasta, saladas frias, escabeches e pratos com base de ovos são muito bem acompanhados com espumantes, nas suas diversas cores e vestimentas. Até queijos! Por exemplo, experimentem um S. Jorge evoluído com um espumante Czar Rosé Bruto da Murganheira.

Historicamente esta  bebida era associada em França às festas  da alta nobreza, do palácio de Versailles.  Depois da Revolução Francesa a bebida democratizou-se e passou a ser utilizada para substituir rituais religiosos.

Quando um barco era inaugurado, por exemplo, em vez de chamar um padre para abençoar com água-benta,   os revolucionários começaram a usar o champanhe. E os mais práticos, aqueles que tinham posto o “cocard” tricolor por causa das modas, mas continuavam a acarinhar os velhos costumes, traziam o padre e a duas garrafitas…A da água-benta e a do Champagne.

O costume  de beber este tipo de vinhos rapidamente se estendeu para aniversários, baptizados e casamentos. De tal forma que foi muitas vezes desdenhado pelos puristas como “vinho pueril” próprio de pessoas frívolas…Para não dizer “refresco para senhoras”. Mas felizmente essa percepção foi-se alterando com o tempo.

Cito Luís Lopes Ramos, director da Revista de Vinhos, um bairradino de gema louvando os espumantes:

“Nunca pensei nisso a sério, mas provavelmente abro em casa 4 ou 5 garrafas por semana, e isto numa semana “normal”. Porque se organizar um jantar com 3 ou 4 casais amigos, só esse evento consome pelo menos outro tanto. O bairradino bebe espumante antes de se sentar à mesa (sempre), durante a refeição (dependendo do prato) e depois da sobremesa (com frequência).”

Embora hoje se façam espumantes por todo o país (et pour cause…) a história clássica do Espumante em Portugal está associada à região da Bairrada , mas sobretudo à de Lamego.

Em Lamego prestamos homenagem a essa grande figura que é o Professor Orlando Lourenço, responsável pelas marcas Raposeira e Murganheira,  uma figura incontornável para estudarmos a moderna evolução do mercado dos espumantes em Portugal.

Hoje em dia e por questões da economia e do escoamento das uvas, que me foram explicadas por quem sabe – não sei se sabiam, mas mesmo as uvas que se revelam na vinha assim-assim a atirar para o fraquinho dão bons espumantes se houver quem saiba do assunto – tanto podemos comprar bons produtos deste tipo em Monção como no Algarve.

Por isso mantenho que se fazem em Portugal vinhos espumantes novos de método tradicional (sem adição de gás) tão bons como os vinhos novos franceses da Região de Champagne. Esta afirmação tem uma palavra no meio que é essencial para se compreender este fenómeno: a palavra “novos” no sentido de não serem vinhos de garrafeira ou grandes reservas. Destes, e que eu saiba, há apenas tradição em Portugal dos vintages da Murganheira.

As grandes casas nacionais têm produtos de grande qualidade e a preços muito apetecíveis. Dou como exemplos de excelência o Espumante Soalheiro Bruto Rosé 2011, o Murganheira Millésimé 2011, o Luis Pato Vinha Formal Rosado Bruto de 2010, o Cartuxa Rosé Bruto de 2010. Todos a menos de 30€ por garrafa.

Quando a Sogrape fazia o Carvalhais Rosé Bruto, tínhamos também um produto de grande categoria.

Um Champagne francês de gama média-baixa (como o Taitinger Brut Resérve sem data) custará um pouco mais e é pior, na minha opinião, do que qualquer um dos nacionais citados.

Todavia tudo o que até agora foi referido ainda não nos aproximou da grande aventura que são os Champagnes de excelência. Começo pelo meu favorito – atendendo à fundura da minha bolsa – para as grandes datas: Ruinart Blanc de Blancs, que custará entre 80 € e 110€, dependendo dos anos.

E continuo dando notícia do muito bom que já provei – quase sempre em França e em ocasiões de carácter social onde era convidado – e com preços estimados que retirei dos sites especializados, podendo não serem em Portugal exactamente os mesmos:

Krug Brut Millésimé de 1989 a 220€
Veuve Clicquot Vintage Réserve 1990 a 360€
Pol Roget Cuvée Sir Winston Churchil de 1998 a 140€

Estes Vinhos da Região de Champagne não têm, por enquanto, comparação nenhuma com o que se faz em Portugal. São de uma outra Liga…

Por isso, quando nos referimos aos Champagnes e Espumantes numa só frase há que ter em conta aquilo de que estamos a falar… Como dizia um amigo meu pouco dado à gramática: “Ele há carros e depois há os automóveis”.

Manuel Luar