O peixe está pela hora da morte.

Não me refiro desta vez à Aquicultura. Que já experimentei e não digo mal dela. Porque mais vale um animal de viveiro certificado , bem fresco, do que um peixe de mar “passado”.

Todavia estou nestas matérias como o Comendador Enzo Ferrari: “Se num automóvel de Grande Turismo a nobreza é um 12 cilindros, na mesa, a nobreza é o peixe selvagem do nosso mar”.

E que temos em quantidade! Mar e peixe (por enquanto).

Portugal é o segundo maior consumidor de peixe per capita em todo o mundo, logo a seguir ao Japão, que como todos sabem é um arquipélago, por isso mesmo rodeado de água por todo o lado.

Nesta questão da água salgada, e mesmo com os Descobrimentos à parte, também não estamos mal. Somos igualmente o segundo país com maior área marítima exclusiva do mundo, apenas ultrapassados pelo Canadá. Ou seremos assim que se resolvam umas burocracites bruxelianas.

Por estes motivos o preço do peixe na mesa de nossas casas é um tema importante para a malta lusitana.

A diferença entre o “preço de mar” pago ao mestre da traineira e o preço a que chega às mãos do cliente final o peixe da nossa costa é assombrosa.

Dou alguns exemplos: o carapau, que nas bancas pode valer 5,5 euros por quilo, sai da lota a cerca de um euro o quilo.

Uma caixa de verdinhos (um peixe gadídeo que se pesca às toneladas, utilizado para fritar, por exemplo simulando as “pescadinhas de rabo na boca” ) pode ser vendida a 12 cêntimos o quilo e ao consumidor final chega a 2,79 euros o quilo.

A sardinha parece filigrana em Junho. Dizem que é por causa da lei da oferta e da procura. Mas duvido. Haja muita ou pouca, venha ela gorda ou magra, na mesa do português a variação do preço não é grande.

Paga-se na lota 1 ou 2 euros por cada quilo da sardinha (e é caro). Nos mercados sai a 5 euros o mesmo quilograma (com sorte) e alguns restaurantes vendem a dose de sardinhas a 9 euros. Estamos a falar de uma dose com 4 sardinhas, umas folhas de alface, uma rodela de tomate e duas batatas. Lembro que um quilograma terá, em média, 12 sardinhas…

A sardinha não esteve faltosa no ano passado, se calhar porque vem de outras bandas mais para o Sul, mas esteve como não me lembro de a ter comido há muitos anos; seca, fraquinha mesmo… Indigna de umas batatas de Trás-os-Montes cozidas com a pele e de uma salada de pimentos!

Por isso baixou o preço? Não senhores…

Que longe estamos da quadra antonina:

Ó meu santo de Lisboa
Diz-me qu’a vida não é só nadar
Queria um homem que me achasse boa
Que me soubesse saborear

Deixo a sardinha (que me apoquenta) e volto à vaca fria, que por acaso é peixe:

Comprei um robalo do mar este fim-de-semana passado a 23 euros o kg. Perguntei depois na lota qual o preço a que tinha saído. Saiu a 7 euros.

Mas porquê estas diferenças? Quem sabe da matéria diz que é especulação pura e simples.

Um responsável governamental já tinha afirmado: “Aparentemente – e digo aparentemente porque ainda não o estudamos e não tenho dados objetivos para o poder afirmar -, há aqui uma distorção na distribuição de rendimentos para a qual precisamos de olhar, e iremos olhar”.

Convém é ir ao oculista e comprar uns óculos para poder “olhar” bem, e depressa.

As autoridades de fiscalização alimentar e económica estão mais preocupadas com as bolas de berlim nas praias em vez de visarem com os seus meios de intervenção o caso dos intermediários no comércio de peixe, que fazem com que o peixe seja muito mais caro do que a carne?

Levem mas é daqui o traste do salmão de estufa ou a miséria das carpas e das percas do Egito e outras bichezas intragáveis para lusos!  Mas deixem-nos a sardinha, a petinga, a cavala e o carapau, a preços proletários e os chamados peixes nobres a preços burgueses (não há milagres). Mas burgueses remediados.

Manuel Luar