Se tudo correr bem com o controlo das doenças geriátricas havemos de chegar a uma altura da nossa vida onde a água passará a ser tão cara como o vinho, ou até mais cara. O que nos parecerá muito peculiar, se vivermos o suficiente para lá chegar.

Defrontei-me com essa sensação algo estranha uma vez nos Emiratos Árabes Unidos, onde me foi dito por pessoal da nossa embaixada que ali a água potável era ao preço da gasolina. Estávamos no país onde a polícia de trânsito possui alguns Porsche, para controlar os Bentley e Rolls Royce que por ali veraneiam habitualmente.

De todas as formas, por enquanto aqui no nosso burgo uma garrafa de um bom vinho, colheita do ano, pode custar 25 euros num restaurante, e a garrafa de água do Luso custará 3 ou 4 euros.

Vem esta conversa porque noto (e nota quem anda por aí nestas andanças) ser cada vez mais comum um almoço de negócios em Portugal estar acompanhado apenas por água.

Esta tendência de fazer baixar as contas começou na altura da crise de 2008, tendo por repercussão imediata uma diminuição notável no consumo de digestivos nos restaurantes. O que ainda hoje se mantém.

Resultou a estratégia porque se revelaram argumentos de razão e de coração contra o consumo de álcoois fortes à mesa de uma refeição de trabalho.

Nada tenho contra essas intenções, e devo dizer que até as apoiei muito antes dos tempos da troika. O lugar do conhaque ou do malte velho é ao lado de amigos antigos, com tempo para reminiscências, em nossa casa ou fora dela.

O passo mais à frente passa agora pela recusa liminar do vinho na mesa dessas mesmas refeições “de negócios”.

As vantagens são conhecidas: conta mais maneirinha, uma certa superioridade moral de quem oferece por recusar o álcool como se se tratasse de uma opção pecaminosa, e fazer passar a mensagem que estamos perante um almoço de negócios, não há ali amizade ou companheirismo, apenas “negócio”.

Nem sei por onde comece para desancar a filosofia destes novos dias e destas novas pessoas que habitam em Portugal e que aqui transacionam.

Não vivemos no espaço sideral. Estamos inseridos numa cultura mediterrânea onde o pão, o azeite e o vinho foram, são e vão continuar a ser, pilares fundamentais da civilização.

Nos Estados Unidos de influência puritana ou no “bible belt”, ninguém leva a mal que a refeição seja acompanhada por uma gasosa com limão, ou por chá gelado.

Se estivermos na Califórnia, perto do “wine country”? Não é já socialmente aceitável essa proposta.

Em Paris? Ainda muito pior.

Em S. Petersburgo começam logo por nos receber com copos de vodka, e se recusarmos lá se vai o negócio para a Sibéria…

Na China? Se não acompanharmos os muitos “Kampei” feitos com brandy e esvaziando os balões, podemos dizer adeus ao comércio em discussão.

Saber onde estamos é fundamental para gerir o comportamento.

O grande antropólogo Levy-Strauss dizia que existiam sociedades primitivas em que o convidado de honra (o padrinho) da boda de casamento era suposto dormir com a noiva, enquanto noutras sociedades o mesmo convidado de honra morreria de vergonha se vislumbrasse o tornozelo nu da dita noiva. O problema é se alguém, “in situ”, confundia uma sociedade com a outra…

Nem todos sabem, mas a génese do “almoço de negócios” tem a ver com uma estratégia de quem convida: a de ficar a conhecer melhor a pessoa que é convidada. E diríamos que o inverso também é verdadeiro: pelas maneiras à mesa de quem convida, o convidado ficará de igual modo a saber com maior segurança com quem está a lidar.

O cliente, num país do sul da Europa, que é convidado para um almoço de água (não tendo contra o vinho preconceitos notáveis, por motivos religiosos ou por padecer de doença do fígado incapacitante) deve imaginar que aquele fornecedor potencial que o convida ou está falido ou irá falir rapidamente.

Pior ainda, quem convida nessas circunstâncias pode ser etiquetado como “alguém que não sabe estar”. E essa reputação espalha-se rapidamente.

Quem entender convictamente que um “almoço de negócios” não envolve essa outra parte da vida que apela às coisas boas partilhadas em conjunto, ou errou na profissão, ou herdou o negócio e rapidamente o afundará.

Melhor seria, e bem mais condizente com o espírito do mundo atual, convidar para um pequeno-almoço de negócios em algum hotel de qualidade superior. Onde já seria muito mais convincente e socialmente bem aceite a abstenção de bebidas alcoólicas.

Se convidamos e se o nosso convidado pede desculpa mas invoca não poder, não desejar, não ser capaz de beber álcool, tudo bem. Manda a etiqueta que se respeite a intenção, mas nem tanto que o acompanhemos naquela inclinação para não parecermos hipócritas.

Agora, se tomamos nós a iniciativa de recusar o vinho sem auscultar o outro?

Que forma grosseira de estar na vida…

Levo 38 anos a convidar e a ser convidado, aqui em Portugal e um pouco por todo o mundo.

E posso garantir que me passou de tudo pelas mãos. Desde o abstémio convicto e respeitável, ao hipócrita que dizia “não” e que acabava por se deixar convencer, até à senhora que vinho nem cheirava, mas que depois se vingava abundantemente nos vodkas (antes e depois), para já não falar dos campeões que acompanhavam a refeição do princípio ao fim com Johnny Walker rótulo preto!

Recordo com boa disposição a visita a Lisboa de um potentado indiano que quando chegou ao restaurante anunciou logo, em alto e em bom som, que era vegetariano e que não bebia álcool.

Depois de ver o que se escolhia (era “perdiz estufada” para todos os outros) não só alinhou no “pássaro” como o acompanhou com vinho. Mas vinho branco, porque para ele o tinto é que seria o “vinho do pecado”.

Como disse à saída o proprietário do restaurante baixinho para mim: “vegetariano, mas não fundamentalista”…

 

Manuel Luar