Cultura, workshops, debates, jornalismo, convívio, música e raios de Sol. Assim se fez mais uma edição do Trampolim Gerador, que durante quatro dias trouxe mais dinamismo e vida ao Lumiar.

O programa diversificado juntou juventudes de corpo e de espírito junto à Central Gerador, onde, apesar das condicionantes impostas pelo luto nacional inerente à morte do presidente Jorge Sampaio, se realçou a importância da informação e da cultura para o desenvolvimento individual e social.

Antecipando o fim de semana, o festival arrancou na quinta-feira, dia 9 de setembro, com a inauguração da exposição “Suspenso – Um Lugar de Contemplação”, com trabalhos dos artistas André Costa, Juliana Campos e Maria Rebela, e que resultou de uma parceria do Gerador com a Associação Pousio.


Seguiu-se o debate sobre o que “O que é o Interior?”, que juntou Bárbara Moreira, fundadora da Associação AIIR e do Projeto LAR, a atriz Cátia Terrinca e Luís André Sá, diretor do Festival Planalto. A conversa incidiu particularmente sobre ideias preconcebidas e estigmas mantidos em torno do interior, alastrando para as diferentes problemáticas associadas ao desequilíbrio demográfico do país.

O interior e os preconceitos que persistem

“Esta questão do interior é demasiado vasta para ser designada por uma única palavra”, arrancou Cátia Terrinca, afirmando que o território é diferenciado. “Acho que acaba por ser necessário também, na observação que fazemos do país desde fora, perceber que, de facto, temos um bocadinho dois ritmos e, depois, dentro desse segundo ritmo, há muitos outros diferentes, como também haverá ritmos diferentes entre Lisboa e o Porto e Coimbra, que são designados como as grandes cidades.” Para a atriz e dramaturgista, ainda é necessário tornar o interior mais visível para “quem decide politicamente o futuro do país”.

Luís André Sá começa por partilhar que, nos últimos quatro meses, participou em cinco conversas sobre o interior. “De repente, parece que, não só o interior se tornou uma moda, como, de facto, nós estamos a profundar este declive entre aquilo que é o litoral e o interior. Ou seja, estamos a discutir tanto o interior que parece que estamos mesmo a afirmar que ele é diferente”, alerta o fundador e diretor artístico e de programação do projecto PLANALTO – Festival das Artes, que decorre em Moimenta da Beira, no distrito de Viseu.

Já Bárbara Moreira, fundadora e presidente da Associação AIIR – Apoio à Inclusão de Imigrantes e Refugiados, acredita que há diferenças entre o litoral e o interior, embora concorde que o interior não pode ser visto como um território uno, porque cada região tem as suas especificidades, génese e características. “Não é correto, de todo, olhar para o interior como um e implementar medidas que são transversais ao interior, porque isso não é praticável. Já percebemos com o passado, em que foi feito várias vezes e não correu bem”, diz.

Perante a questão do que significa coesão territorial, Cátia Terrinca dá o exemplo dos transportes públicos, que muitas vezes escasseiam em determinados territórios. “Isso é uma das formas de coesão, no sentido mais imediato e literal; de ligares o território, de forma a que as pessoas não tenham de ter 18 anos e a carta e um carro para se poderem deslocar.” A atriz reforçou que nem toda gente está nessas condições, sublinhando aquele que deve ser o papel do Estado, “de garantir a nossa dignidade enquanto cidadãos de podermos usufruir de um serviço de saúde, de justiça, de educação, cultural, como qualquer cidadão, que esteja a residir numa grande cidade”. Para a também encenadora, o primeiro ponto da coesão territorial é “garantir a constituição”. “Há um desconhecimento geracional daquilo que é o desrespeito com que o Estado trata estes cidadãos, e há gerações que isto é consentido”, refere.

No interior há mais conservadorismo e preconceito? Bárbara Moreira responde perentoriamente que não. “Eu acho que isso é transversal, quando estamos a falar de pessoas de idade serem mais resistentes à mudança, quer seja no interior, quer seja no litoral, seja onde for.” Dando o exemplo de um projeto-piloto de acolhimento de refugiados na aldeia de Ima, na Guarda, que conta com apenas 20 habitantes, Bárbara acredita que “a idade pesa, a ruralidade não tanto”.

Para Cátia, que reside em Elvas, “essa sensação de maior conservadorismo no interior não só é um preconceito completamente vindo da ideia de província do Estado Novo […], mas também tem que ver com a ignorância na qual nós acabamos por viver, muitas vezes, quando estamos num sítio em que nos é permitido escolher a dedo as pessoas com quem nos relacionamos”.

Luís André Sá acrescentou que os grandes centros urbanos vivem, muitas vezes, numa falácia de diversidade, uma vez que as pessoas vivem fechadas nos seus círculos, e dá o exemplo que experiencia em Moimenta da Beira: “de repente estar sentado à mesa com uma artesã, ou com uma pessoa que consome muito álcool e todas as noites vê o canal Hollywood no café da vila, para mim, isso sim é que é a pluralidade da sociedade”, afirmou.

Esta conversa – cujo término deixou no ar a sede de continuidade – foi seguida de uma performance inédita, escrita e encenada por Tiago R. Santos. Intitulada “Comida Dramática”, a peça contou com a participação de Cleo Diará, Luís Eusébio, Raquel Rocha Vieira e Teresa Tavares, acompanhados pela música de José Anjos. A terminar o primeiro dia, esteve ainda a compositora e guitarrista brasileira radicada em Leiria, Labaq, cuja melodia suave foi digerida pelo meio de petiscos, brindes e sussurros.

Presente e futuro do jornalismo em debate

Na sexta-feira, dia 10 de setembro, Portugal acordou com a triste notícia do falecimento do antigo presidente da República, Jorge Sampaio. O Governo decretou três dias de luto nacional, o que conduziu a alterações na programação de eventos e festividades. O Trampolim não foi excepção: as performances “Comida Dramática – O Leopardo”, “Comida Dramática – A Borboleta” – previstas para dia 10 e 11, respetivamente – e os concertos de Rão Kyao, Filho da Mãe, o DJ Set Zorotraste e o dueto Margarida Montenÿ e Pedro Branco ficaram suspensos, com a promessa assumida de concretização em datas a anunciar.

Mesmo perante estas condicionantes, o Largo das Conchas foi palco de um aceso debate sobre “Para onde vai o jornalismo?”. O fotojornalista João Porfírio, e os jornalistas Pedro Santos, do Fumaça, e Sofia da Palma Rodrigues, da Divergente, discutiram temas como o financiamento dos órgãos de comunicação social, a imparcialidade e objetividade jornalísticos (ou a falta deles), a falta de diversidade étnica, cultural e etária nas redações ou a problemática em torno do papel das redes sociais, entre outros assuntos.

Questionada sobre a subsistência dos média independentes, Sofia da Palma Rodrigues disse não acreditar que o jornalismo possa ser lucrativo, e sublinhou que “só existe uma verdadeira independência se existir uma pluralidade nos financiamentos”.

Ao mesmo tempo, foi referido que esse mesmo financiamento tem de permitir a estabilidade laboral dos jornalistas que, de outra forma, não desempenharão a sua função adequadamente. No Fumaça, por exemplo, “não existe a ideia de poder ser jornalista sem que esse trabalho seja pago”, disse Pedro Santos.


Assumindo uma visão distinta, o fotojornalista do Observador, João Porfírio, afirmou que o grande garante de independência deve ser a não interferência no trabalho jornalístico: “desde que não interfira no meu trabalho, não me oponho nada que o meu ordenado seja pago por privados”, sublinhou.

E a propósito de financiamento e precariedade na profissão, foi também apontado como problemático o despedimento de jornalistas veteranos e veteranas, facto que acaba por refletir-se na evolução dos (as) jornalistas mais jovens. “Ser jornalista aprende-se numa redação, não se aprende em mais lado nenhum”, acrescentou Pedro Santos.

O debate acendeu perante o tema da liberdade de expressão, publicação de opiniões e a possibilidade de as mesmas poderem exprimir discurso de ódio ou formas de discriminação. Como devem órgãos de comunicação social agir neste campo? “Independentemente do que achamos certo ou errado temo ter o filtro da dignidade”, já que o trabalho do jornalista é, precisamente, selecionar informação disse Sofia da Palma Rodrigues. Por outro lado, “não há nada que se compare entre um colunista e um jornalista”, frisou João Porfírio que, apesar disso, admitiu que “o Observador é culpado de muitas diarreias mentais que ali são escritas”, ao escolher não interferir.

Após esta discussão, foi dado espaço a diversos projetos, na Pecha Kucha. Neste momento de apresentações breves, estiveram presentes O Benefício (laboratório de inovação baseado na sustentabilidade), o festival de cinema Triste para Sempre, a associação Arroz Estúdios (espaço de artes), a plataforma para jogadores e fãs de Basquetebol Hoopers, a artista multidisciplinar Mia Gourvitch, o atelier Campos Costa Arquitetos, o estúdio de arquitetura FORJA e o Barómetro Gerador, que se deram a conhecer.

Sol, famílias e a Revista Gerador

Num sábado soalheiro, o terceiro dia de Trampolim acordou com um workshop de reparação criativa de roupa e foi abrindo o apetite com uma masterclass de sustentabilidade alimentar. A tarde chegou com um workshop de ilustração para famílias que trouxe cor, tinta e sorrisos às faces de miúdos e graúdos. Seguiu-se um reconfortante sofá de poemas, a cargo da atriz Rita Cruz, que antecedeu o lançamento da edição 35 da Revista Gerador, cujo tema de capa questiona “Como se define a Interioridade?”.

Ana Sofia Paiva, doutoranda em Ciências da Comunicação, colaboradora de vários projetos de imprensa e rádio – entre eles, o Gerador – e beirã de gema esteve presente para falar sobre a sua visão relativamente ao interior do país, jornalisticamente falando. Explicou que, frequentemente, as zonas de baixa densidade só são retratadas de forma “sazonal”, em temas que se tornaram lugares comuns: incêndios, praias fluviais, romarias e tradições. “Não são só os grandes centros que têm histórias para contar”, afirmou, dando o exemplo da reabertura do troço ferroviário entre Covilhã e Guarda e do grande significado para a população local. Há, conforme explicou, uma desumanização na forma como os acontecimentos são retratados pelos órgãos de comunicação, que deixa de lado a perspetiva das populações. Um problema dos média nacionais, mas que não se limita a artigos sobre o interior de Portugal, sendo transversal a várias temáticas.

Isto mesmo disse a jornalista Paula Cardoso, referindo-se à forma como a população negra é retratada nos média. “Há uma série de terminologias que surgem para criar esse fator de não pertença”, afirmou.

As terminologias foram, aliás, um dos pontos referidos por Pedro Carreira. O ativista pelos direitos LGBTI e fundador do projeto esQrever explicou que, muitas vezes a linguagem utilizada pelos média contribui para perpetuar estigmas por não ser inclusiva. E exemplificou com a campanha da Comissão Nacional de Eleições que antecedeu as eleições presidenciais e que referia “o” presidente da República, quando havia também mulheres a concorrer para o lugar. “O imediatismo, quando alguém usa o masculino como neutro molda-nos o pensamento”, explicou. “A inclusão é importante e a linguagem é uma das ferramentas que temos para incluir, em vez de excluir”, acrescentou.

É por situações como esta que a jornalista Paula Cardoso afirmou que “é preciso investir na formação dos jornalistas” para evitar que estas abordagens se perpetuem.

O seu contributo pessoal foi, aliás, dado logo de seguida, numa masterclass sobre “Filtros Étnico-Raciais nos Média”. Durante cerca de hora e meia a jornalista trouxe exemplos de publicações e da forma como estas falham em retratar a comunidade africana adequadamente. Explicou que a narrativa vigente reforça a exclusão das pessoas negras, por assumir que estas são sempre excepções e nunca a regra. A fundadora do Afrolink disse ainda que os tais “filtros” existem em todos os órgãos de comunicação e resultam de vários fatores como a avaliação do valor notícia, o perfil da direção da publicação, as fontes utilizadas na peça, o leitor habitual da publicação, a falta de sensibilidade dos jornalistas para a questão em análise, entre outros.

Uma reflexão marcante mas que não deu os trabalhos por concluídos. Antes de terminar houve ainda um domingo de Trampolim, que trouxe aos mais pequenos uma manhã especial, ocupada com a peça Chapeuzinhos, que foi interpretada por Eva Barros e Lanna Guedes. A última tarde destes quatro dias de cultura e debate teve ainda espaço para um workshop de Compostagem e uma leitura de poesia no Sofá dos Poemas, com a atriz Sara de Castro

Durante todo o festival foi ainda possível visitar a mais recente obra de arte urbana da artista visual Pitanga, o Projeto Cultural Roda Livro Itinerante, e o Mercado no Bairro, presença habitual nos fins de semana, no Largo das Conchas. A organização do Trampolim esteve a cargo do Gerador em parceria com a junta de freguesia do Lumiar.

Texto de Sofia Craveiro e Flávia Brito
Fotografias de David Barata