Na crónica desta semana a questão é recomendar um restaurante onde se possa ir comer sozinho.

Comer sozinho? Então e a defesa da convivência em redor da mesa? E o reforço dos laços familiares e de amizade à volta do tacho? (Tacho aqui no sentido real e não figurado).

Tudo isso é verdade. Mas não deixa também de ser verdade que há alturas em que um homem (ou uma mulher) prefere comer sem companhia.

Dou exemplos: Logo a seguir à declaração do divórcio. Depois de termos ganho um prémio na lotaria, pensando em como se dará a notícia lá em casa. Para ganhar coragem. Coragem para quê? Pedir a princesa em casamento ao pai, dizer à mãe (à nossa) que vamos sair de casa. Cravar o “velho” para a entrada do andar, etc…

De uma forma geral, sempre que é preciso pôr “ordem no sótão”, um bocado desarrumado com as preocupações da vida.

Nestas ocasiões a minha recomendação é única: O Gambrinus!

O Gambrinus é uma Instituição de bem servir em Lisboa. É um Restaurante que nem ouve falar de modas e que as despreza, embora abrace paulatinamente os novos clientes que essas modas provocam. Nunca a ninguém – desde que relativamente sóbrio e apresentável – foi recusado serviço no Gambrinus, nem à mesa nem ao balcão.

E por aqui é que vamos: pelo balcão do Gambrinus, O mais importante do País, “barra” respeitabilíssima pelo cuidado com o cliente, antigo ou moderno, e pelas mordomias a que este tem direito.

Ali podemos ver antigos Presidentes da República e líderes do PCP. Compartilhamos a barra com grandes intelectuais deste País, mas também com ilustres desconhecidos que pedem uma “gambrinus” (imperial mista) e dois croquetes fritos ao momento, no fim da tarde.

A casa tem duas entradas, um balcão enorme e duas salas. A principal, tem uma mezanine e é dominada pela imponente lareira do fundo. A outra sala – identifico-a pelo retrato a óleo pendurado por cima da minha mesa favorita – é mais recatada e dá para aqueles almoços que começar, começam, mas nunca se sabe quando acabam…

Quem entra pelo largo dos bombeiros, nas traseiras do Teatro Nacional, chega à mesa praticamente anónimo. Claro que quem pretende ver e ser visto escolherá a entrada pela Rua das Portas de Santo Antão (do Coliseu) e passando ao longo do comprido balcão poderá “cuscar” quem lá está sentado.

O tipo de refeição depende do local onde nos sentamos. Na sala o aconselhamento é feito pelo Sr. Octávio Ferreira, profundo conhecedor de tudo o que é restauração.

Ao balcão impera Mestre Brito, um grande escanção da nossa praça e também ele profissional de grande mérito .

Aí, nesse balcão-oásis de civilização e de conforto, podemos começar pela Imperial branca com as famosas torradas de pão de centeio com manteiga e presunto pata negra. Em apetecendo manda-se vir umas gramas de camarão de Espinho ou de gambas de Cascais, só com sal grosso.

A seguir pede-se uma sandwich de rosbife frio com pickles, em pão de centeio torrado na altura e dois croquetes quentes.

Se a fome (ou a preocupação) persistir “aviamos” depois um prego do lombo grelhado e terminamos com uma dose de Queijo de Serpa meio curado.

Tudo isto com cerveja mista “gambrinus” ou branca .

Uma boa alternativa é passar do pata negra e das gambas para uma “Omolete aux fines herbes” com umas batatas fritas feitas como desejarmos (aos palitos finos, aos grossos, às rodelas finas, às grossas, etc…)

Os preços só nos permitem lá ir de vez em quando – o que aconselha a espaçar as grandes preocupações – mas uma refeição ao balcão, incluindo marisco, custará sempre mais barata do que uma consulta em médico particular. Seja qual for a especialidade.

E ao frequentarmos o Gambrinus não só cumprimos a obrigação de manter esta grande instituição sempre aberta, como ainda aproveitamos para tomar “banho de civilização”, pois não se conhece casa mais civilizada e praticante de melhor serviço ao cliente como esta.

E quem isto escreve já esteve em muito lado.

Gambrinus

Rua das Portas de Santo Antão 23-25

LISBOA

Telefone – 21 342 1466

Manuel Luar