Lembras-te do teu primeiro beijo? Eu não. Há a hipótese de poder ter sido dado a uma almofada.

Hoje escolhi escrever sobre um livro de um escritor nascido em Angola. Ondjaki é um criador de sonhos, transporta-nos para um mundo carregado de esperança como se nos quisesse salvar de alguma coisa. Talvez a literatura seja mesmo isso, não será assim leitor?

“A luz falhou de repente”, assim começa este livro. Não sei como acontece em tua casa. Na minha, a ausência de luz sempre foi um acontecimento fascinante. Voltamos a acender velas, a encostar-nos à lareira e a conversar. Como não vemos com tanta nitidez, lembramo-nos de que é importante olhar para as coisas e perceber cada uma delas.

A história é acompanhada pelas ilustrações de António Jorge Gonçalves. A simplicidade das palavras vive da simplicidade dos desenhos e eu desejei, realmente, que fosse sempre assim.

“Às vezes é bom estarmos numa escuridão sozinha, de gruta e conforto, como se o nosso mundo, por alguns instantes, pudesse ser assim – sem tom de cor nem distracção de forma. É bom dividir uma escuridão com outra pessoa, em concha e aconchego, como se dois mundos, nessas gotas de negrume, fossem um só.”

Ondjaki apresenta-nos uma escuridão distante das trevas, espanta-nos o medo e veste-lhe magia. É uma urgência recorrentemente utilizada na literatura: o desejo de voltar atrás, a necessidade de sermos crianças novamente por sentirmos que é nesse tempo que a verdade vive.

Os diálogos merecem todos os elogios que lhes pudermos oferecer. Mostro-te aqui um excerto:

“- Estás triste? – perguntei

– Um bocadinho.

– Porquê?

– Não te acontece, de repente, ficares triste? A mim acontece isso, mas deve ser normal, pois também me acontece ficar alegre de repente.”

Dentro dos livros, há realidades muito feias, mas também muito bonitas. Essa diferença, que é criada pelas mãos do escritor, é preciosa para aquele que lê. É por isso que admiro cada página deste romance, a escuridão torna-se desejável, como se até pudéssemos ver melhor dentro dela.

Há muitas respostas que podemos dar à pergunta “O que é a poesia?” Ondjaki responde da forma mais bonita, utilizando uma prosa que soa a poesia: “A poesia não é a chuva, é o barulho da chuva”

Concluída a leitura, fecha-se o livro e apaga-se a luz. Tudo fica mais bonito assim.