Os Sentidos da Música

O paladar, a visão, o tacto e o olfacto também ouvem.

The Partisan Seed  – Filipe Miranda

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode ou não atrapalhar? A música exige uma rendição total para as notas entrarem pele  adentro?

A música exige, sim, total rendição na altura da composição. E tanta que convém não sentirmos que estamos a compor. A partir daí, no processo de a “formalizar” e apresentar como algo que se interpreta ou se grava, recorremos um pouco ao lado racional para a podermos respeitar e veicular como obra.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer? Aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

As músicas que me fazem mexer são, geralmente, músicas que entram numa espécie de loop ou que se assemelhem a um mantra. É comum eu me abandonar a uma espécie de dança quando estou sozinho se puser a tocar um disco dos Tinariwen, por exemplo. Rir ou chorar sem razão aparente quando ouço esta ou aquela música é recorrente, a música tem essa importância nas nossas vidas.

Já te aconteceu pensares numa imagem ou espaço específico enquanto compões?

Sim, quase sempre. As minhas músicas têm sempre imagens associadas, porque  geralmente escrevo sobre mim e o que vivo. Muitas das vezes as músicas surgem mesmo de imagens que guardo cá dentro. Não é uma imagem e um espaço; são vários.

Como seria a tua música se a transpusesses para uma tela?

Teria de ser um espaço sensível ou uma tela que guardasse uma espécie de infinito, que fosse grande ao ponto de servir de receptáculo de emoções e abrangência de estéticas. Seria talvez uma tela do Franz Kline.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Todos esses sabores misturados num caldeirão emotivo.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que  ficou na tua memória, que música lhe associarias?

Sem dúvida o cheiro de mar. Talvez lhe associe o Nocturne op.9 No.2 do Chopin, faz sentido para mim.

Quando a música invade toda a tua sensibilidade e mente, de que forma te faz imaginar?

De uma forma que não se explica. Penso que todos sentimos isso assim.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes

Foto de DR