Hoje, no Sentidos da Música, falamos com o músico Söll, ou Jorge Pandeirada ;-)

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Na minha opinião, o lado racional pode ajudar se houver uma predisposição para a emoção, ou seja, se a música for contextualizada.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Fico sempre rendido ao Soul, principalmente se houver um bom naipe de metais.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

As que têm mais impacto em mim, são as músicas que faço. Isto não é uma questão egocêntrica. A verdade é que percebo e sinto mais facilmente as músicas que faço do que as que ouço. Por outro lado, a nostalgia é-me sempre gerada por um ou dois álbuns muito anteriores às minhas composições.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Desde há algum tempo que me questiono sobre a utilização de projeções gráficas nos meus concertos, e os seus prós e contras. É certo que oferece ao público algo mais visível ou palpável (refraseando), o que o afasta de distrações. É, portanto, uma forma de controlar e cativar o público. Há uns tempos discuti este assunto com um amigo e ele disse-me algo que fez sentido: tornar a música “palpável” é também afastá-la do sentido auditivo, em muitos dos casos uma projeção gráfica serve não para enfatizar a música, mas para a disfarçar.

Posto isto, continuo, por enquanto, a preferir a música invisível e onde só ela me leva.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Não consigo pensar em composição se não houver um conceito ou uma ideia bem definida por trás. Compor algo só porque é bonito e soa bem não é o mesmo que o fazer com um propósito. No meu primeiro álbum “Cävv” a história passa-se num local muito escuro, onde vive uma criatura, alheada do mundo exterior. Pode não parecer muito, mas foi o que bastou para lançar uma história e o seu desenrolar sónico.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Vejo a minha música muito cinzenta, com pouca cor. Porém essa coloração pode e deve mudar. É possível que se torne mais calorosa nos próximos tempos.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Agridoce

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

O cheiro que ficou na minha memória desde sempre é da terra molhada depois das primeiras chuvas. Uma boa música para associar a este cheiro seria a “Märr” do álbum “Cävv”.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Quando falei em nostalgia referia-me precisamente a isto. Não há nada que me torne mais nostalgico do que (certa) música.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes