Em Beja, antiga Pax Julia, deixámo-nos envolver pelo conhecimento de amigos locais.

Para almoçar saía-se da cidade na Direcção de Serpa e Ficalho. Depois de algumas rotundas tomava-se o desvio (à direita de quem vem de Beja) com a tabuleta “Nossa Senhora das Neves”, ou apenas “Neves”. Rolavam-se por aí mais umas centenas (poucas) de metros até chegarmos a um outro desvio com o improvável nome de “Porto Peles” (tal e qual).

Ali, na denominada Rua Venâncio Rosa Gabriel, nº 3-5, encontrava-se o Restaurante “A Taberna”

Casinha pequena e humilde, com uma filosofia simples e direta.

Não havia ementa fixa. Propunham os pratos do dia em voz alta e pouco mais . A forma de vestir as mesas era sofrível, toalhas de papel, guardanapos de papel, copos e talheres fraquinhos, mesas assim, assim, cadeiras para cidadãos de magreza arrepiante – pelo menos o meu real assento, que admito não ser padronizado,  sobrava que se fartava da tábua para fora…

Casa de teto rebaixado, por isso barulhenta que bastasse quando se encontrava cheia (o que era quase sempre o caso). Ar condicionado não havia, mas existiam ventoinhas no teto, que sempre iam dando para espantar um pouco a canícula.

Então com tanta coisa negativa porque é que estou para aqui a intrigar com esta história?

Bem, em primeiro lugar porque quem fazia a comidinha que lá se manducava deve ter tirado o curso no “céu dos gastrónomos”… Muito bem-feita! Lembrando a frase do Eça sobre o “arroz de favas” na quinta de Tormes.  Onde menos se espera aparece o paraíso gastronómico de sabores.

E, em segundo lugar, porque comendo até saciar dos pratos do dia  – se começasse a faltar na travessa logo traziam mais sem pedir licença a ninguém)  –  bebendo do Tinto de Pias (de garrafão), tendo direito a sobremesa à descrição, podendo ser arroz doce, ou queijeta merendeira de ovelha e ainda o café, pagava o voluntarioso e aventureiro turista tanto como…8 euros no ano de 2011.

No dia desta aventura  os pratos do dia eram “Cozido de Grão com feijão verde à moda do Alentejo”; “Bacalhau assado com a batata a murro”; “Bifinhos de cebolada”.

Comemos o “Cozido de grão”. Duas travessonas para 4 pessoas (uma dava e sobrava).

E quanto ao vinho, depois de provar o branco mandámos logo vir o tinto. O que atesta a qualidade de ambos.

Provaram-se ainda as queijetas e arrozes doces. E beberam-se 4 cafés.

Total: 32 euros. 4 Pessoas.

E bons “pratos”. Querendo com isto dizer que eram meninos que ainda se  sentavam à mesa para comer, e não para provar, como hoje estará muito em moda.

A conta era feita à saída, olhando o patrão para os comensais e avançando o número dos 8 euros por cabeça  (sempre o mesmo…) depois de alguma meditação…

Em conclusão:

Vão lá. A casinha ainda existe e afiançam os amigos da zona que continua na mesma. Não esperem luxo nem conforto de ripanço que lhes permita estar duas horas na conversa depois do almoço – pelo menos se tiverem um “traseiro” do tamanho do meu – ou então levem uma almofadita e, já agora, um guardanapo de pano se tiverem alergia ao de papel.

Agora se quiserem comer bem a preços que já não se usam, aquele ainda deve ser o lugar.

“Lugar” esse que de uma forma mais genérica parece ser atreito a bons paradeiros deste tipo. Será das linhas “ley”, dos alinhamentos magnéticos entre vários locais de interesse gastronómico que ali se cruzam?

De facto, mesmo em frente deste restaurante aqui registado – mesma localidade, mesmíssima rua –  havia (e ainda há) outro paradouro de bem comer que é um pouco mais caro, mas onde a ementa se baseia quase integralmente em carnes de porco preto grelhado no carvão. Serve bem para “desenjoar” da  “Taberna”. E chama-se – estes nomes é que são castiços – “Tói Faróis”…

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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