“Das boas coisas pouco, para que sempre as desejemos com o mesmo fervor” dizia Brillat-Savarin, o “papa” da Gastronomia, referindo-se a estas matérias de comes e de bebes.

Tendo por mote a conhecida frase recordo hoje uma casa de bem comer na invicta cidade do Porto, mais precisamente na Foz do Douro, infelizmente já encerrada. O restaurante Dom Manuel.

O regresso ao Dom Manoel, na Foz, era sempre uma festa. Desde logo pela simpatia irradiante dos proprietários, que me conheciam há mais de 20 anos, ainda do tempo em que eu era visitante assíduo do Porto, sempre em trabalho mas nunca descurando a boa mesa, entre amigos.

Os negócios à moda do Porto sempre foram os mais conseguidos da minha vida profissional.

Ali tudo tinha o seu espaço e a sua hora marcada para fazer. Discutiam-se ao tostão as empreitadas que eu levava aqui de Lisboa.

Após animada e muito séria discussão o dono da fábrica perguntava: “estamos combinados?” Quando eu dizia que sim, ele apertava-me a mão (nunca precisámos de papéis para confirmar o acordo) e retorquia “Então vamos ao cognac que de negócios já tratámos!”

E arrastava-me para os melhores restaurantes do Porto e arredores.

Grandes tempos, grandes amizades que se estenderam até aos dias de hoje.

Tudo isto para vos dizer que foi esse fornecedor e amigo que me apresentou ao inefável Sr. Manuel, proprietário do restaurante do mesmo nome na Avenida de Montevideu.

O restaurante estava montado numa bela vivenda aristocrática virada ao mar, com largos lampiões brancos a encimar o portão da entrada.

Logo à entrada existia do lado esquerdo uma ourivesaria (imaginem) que era gerida pela esposa do proprietário. Tratava-se de um pormenor um pouco kitsch mas como não influenciava em nada a qualidade da vianda ninguém lhe dava importância.

Em frente o acesso à sala de jantar e ao primeiro andar (com os lavabos e salas reservadas para pequenos grupos). Do lado direito um agradável bar para esperar pela mesa, decorado à moda de um clube londrino, com amplas poltronas de cabedal.

A refeição que aqui recordo foi a última que comi no D. Manuel. Pouco tempo depois encerrava as portas, não se sabendo muito bem a causa, mas falando-se de graves problemas financeiros da gerência que nem a existência da ourivesaria ali aberta terá conseguido colmatar.

Começou-se esse jantar com umas amêndoas torradas, passadas levemente por óleo, enquanto se bebeu um Vodka com água tónica.

A conversa inicial foi sobre futebol, discutindo-se o Estoril-Praia onde eu era secretário, e a dificuldade que o poderoso FCP sempre encontrava no velhinho campo da Amoreira.

O que até calhou bem, já que por acaso o grande presidente Sr. Jorge Nuno estava por lá nesse dia igualmente a comer.

A casa de jantar tinha uma belíssima amesendação, talheres, pratos e copos da melhor qualidade. A decoração e a vista para a Foz do Rio Douro eram soberbas.

Na mesa apareceram primeiro as sardinhas pequenas passadas por farinha “milha”, o salpicão, os pãezinhos quentes recheados de chouriço, as pataniscas de bacalhau e, camarão da Aguda.

Depois, bem, depois começaram as coisas sérias: Costela de Vitela Mendinha, que se derretia na boca de tão tenra que era… E antes o Pargo de Pinta assado no Forno com arroz de grelos e batatas assadas.

Em outras ocasiões fora o Cabritinho assado no Forno, com arroz também de forno. Nos Invernos imperava o Cozido à Portuguesa, um monumento nacional com enchidos de Lamego. Também as honradíssimas Tripas à Moda Do Porto tinham ali uma interpretação de solista, bem assim como o Arroz de Couve com Filetes de Pescada.

O D. Manuel servia uma excelente comida burguesa, sem aqueles “tiques” à moda dos modernos restaurantes de “fusão” ou de “autor” mas – se me permitem o desabafo – enquanto esses restaurantes acabam por nos fatigar se muito frequentados, desta comida que era feita como em casa das nossas avós, quentinha e reconfortante e só utilizando matéria-prima da melhor qualidade, nunca nos fartávamos.

As sobremesas eram de enorme abrangência, tendo as mais importantes receitas nacionais, desde os Papos de Anjo ao Pudim do Abade de Priscos, passando por um Queijo da Serra sem mácula.

E para beber, para além da extensa carta de vinhos, possuía Vinhos do Porto muito antigos e uma impressionante coleção de whiskies de malte e de aguardentes velhas.

Nesse jantar memorável cometemos a traição de beber um vinho branco do Alentejo, mas logo a seguir veio um grande tinto do Douro:

– Branco – Casa de Santa Vitória 2006   que tinha sido 1º prémio do Concurso de Vinhos do Alentejo, poderoso, cheio de textura, sabor a pêssegos maduros, notável.

– Tinto – Quinta de Roriz Douro Reserva de 2004 – Era uma incógnita este vinho tinto, do qual apenas sabíamos que tinha vencido a prova cega – realizada na garrafeira do CCB hoje infelizmente encerrada, a “Coisas do Arco do Vinho” – entre os Pintas, Poeiras, Vale Meão e outros que tais do mesmo ano.

E a qualidade viu-se e provou-se. Austero ainda na boca, secando um pouco o palato. Não guloso como tantos dos seus irmãos feitos para agradar de imediato, mas de grande dignidade estrutural. Frutos pretos, poucos, e um pouco de pimenta.

Era um restaurante caro?

Com tudo o que referi, as entradas, mais o Pargo Assado e a Costela de Vitela Mendinha, as duas garrafas de vinho, dois Whiskeys e cafés, pagámos nesse jantar tanto como 140€. E éramos três à mesa.

Tenho muita pena de já não poder ir ali comer tão bem e brincar com o Sr. Manuel sobre a “guerra” que o meu Estoril-Praia fazia nesses tempos ao Futebol Clube do Porto. Ficam as recordações.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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