Houve quem reparasse que nesta excursão pelos locais mais saborosos da minha memória gastronómica prevaleciam as mesas mais caras e as matérias-primas mais dispendiosas.

Se para os vinhos é verdadeira essa conclusão, pois é muito difícil encontrar em relação a esta matéria “galinha gorda por pouco dinheiro”, já no que diz respeito aos pratos confecionados, à comidinha propriamente dita, é possível abrir várias gavetas da cómoda das minhas recordações com excelentes resultados gravados a preços muito moderados.

Esta recordação que aqui trago faz-nos recuar 21 anos. Estamos portanto em 1997. Ainda não há “euro” mas já não se fala de outra coisa.

Lisboa parece um estaleiro. Está em obras para a “Exposição Mundial” a inaugurar no dia 22 Maio do ano seguinte. Por sua causa os preços da hotelaria e da restauração na capital deram alguns pulinhos para cima.

Todavia o local desta memória é Palmela, sede de concelho na península de Setúbal, e, no alvor da nacionalidade, o centro nevrálgico da poderosa Ordem Militar de Santiago, cuja maior Comenda estava instalada no seu castelo.

O almoço que ficou na memória teve lugar num pequeno restaurante dentro do centro histórico, muito próximo da Câmara Municipal.

Como na grande maioria das outras “recordações” sirvo-me do meu livro de anotações da altura, onde registava apenas almoços, jantares e vinhos brancos ou tintos que me tivessem impressionado.

Era uma casa pequena e entrava-se pelo café com balcão sobre a esquerda e sala de jantar nos fundos. Poucas mesas, lugar para 20 a 25 pessoas. Na entrada da sala dos fundos uma montra para mostrar o peixinho.

Modesta locanda. Amesendação humilde com o popular papel imperando em cima das mesas.

Soube mais tarde que tinha existido um casamento feliz entre a encarregada pela gerência do estabelecimento e um “homem do peixe”, com lugar aberto no mercado. Desta forma a melhor escolha da praça de cada dia ia sempre ali parar, àquela pequena montra que referi.

Fechando a casa às Segundas-feiras – dia seguinte ao descanso obrigatório da frota de pesca – era garantido que aquilo que aparecia à venda nos outros dias, embora não se tratasse dos “aristocratas” do nosso mar, era sempre material fresco e de primeira apanha.

A clientela era constituída por empregados da câmara, por bancários e pequenos comerciantes. Passantes, ou turistas, não vi nenhum apesar de ser Verão.

Naquele dia, uma Terça-feira de Julho, os peixes plebeus que compareceram à chamada foram  a  proletária “sardinha prata”; o famoso (e cada vez mais raro) “carapau manteiga”; os “sargos de palmo” e os ainda mais proletários “carapaus negrões”. Para completar a canasta viam-se algumas postas de corvina recentemente cortadas em viés.

Tudo isto tinha como destino a grelha de carvão existente no restaurante.

A particularidade que me levou a registar esta refeição humilde foi a prova do “carapau-manteiga”. Trata-se de uma  variedade de carapau caracterizada por apresentar umas manchas brancas no lombo que depois  se tornam douradas no fogo, dando a ideia que foi barrado com manteiga.

Para além das manchas brancas no lombo, é também identificável, como dizem os pescadores,  pelo ” camarão na barriga”. Tem uma cor laranja na parte de baixo do dorso.  É característico da Costa Azul, mas também aparecia (que saudades) lá por Cascais. Grelhado,  o seu paladar é inigualável  e deve-se comer no Verão, quando está mais gordo.

Comi uma dose de carapaus manteiga grelhados com batata cozida de boa qualidade e salada mista. Bebi meio jarro de vinho branco local, sem marca, mas que me afiançaram ser de garrafão vendido pela Adega Cooperativa de Palmela.

Havia queijinhos da região frescos e curados. Ambos  estavam de chorar por mais, não renegando a denominação oficial “Azeitão” destes últimos.

O pão era muito bom, de uma qualidade fora do vulgar, o que tentava o felizardo cliente a servir-se dos queijinhos de ovelha nas suas duas roupagens.

E depois um cafezinho enquanto esperava pela hora da reunião.

Por tudo isto paguei 800 escudos, atestados pela escrita no meu diário de “comes e bebes” notáveis. Seriam hoje 4 euros.

E leio nas minhas notas dessa Terça-feira, dia 15 Julho: “aprovado e muito recomendado, sobretudo para quem gosta de peixe e não liga muito à envolvente. Que não é atascada, longe disso! Mas vivendo o patronato sobretudo dos rendimentos do  café, não pode deixar o restaurante parecer mais isso (café) do que outra coisa.”

Nota:  O Restaurante, que se chama agora “3ª Geração”, está menos “café” e mais “restaurante”, e continua a servir muito bem o peixe fresco do dia na Rua Serpa Pinto, 147, em Palmela. Dá gosto testemunhar esse facto. Pagaremos atualmente cerca de 12 euros por pessoa se lá formos comer peixe fresco, queijo e vinho de Palmela. O tempo passa e não há milagres.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

Se queres ler mais crónicas do Bem Comer clica aqui.