Os apreciadores de livros clássicos de “fantasy” devem recordar-se do título “Ill met in Lankhmar”. Trata-se de uma novela do grande escritor do género Fritz Leiber, onde este nos conta o primeiro encontro do famoso duo de heróis de tantos e bons livros subsequentes: Fafhrd o bárbaro, e o seu companheiro Gray Mouser.

Deixando para lá esses meus “apetites” por Ficção Científica e Fantasia (que me acompanharam durante toda a vida de leitor), trago aqui a história de um almoço no Fialho, em Évora, onde para além da qualidade do que se comeu e bebeu foi sem dúvida a importante qualidade dos amigos presentes que fez a enorme diferença e é a razão do “momento inesquecível”.

Nesse dia tive o privilégio de reunir pela primeira vez na mesma mesa para almoçar as duas figuras fundamentais da crítica gastronómica do seu tempo: David Lopes Ramos e José Quitério. Daí a comparação com o tal “encontro aziago em Lankhmar”.

Só que no velhinho Fialho, nessa terça-feira 25 de Novembro de 2008, o encontro foi esplendoroso e nunca aziago.

Por azar um dos “almoçantes” estava nesse dia com a víscera estragada. Era o David, queixando-se amargamente dos exageros que experimentou na véspera, em casa de Dirk Nieepoort, provando numa noite não sei quantos vinhos do grande especialista duriense.

Fui o primeiro a chegar e, convicto do segredo que o José Quitério queria sempre imprimir a estas suas demandas de investigação gastronómica, apenas disse na altura que esperava alguns amigos, mas que eram gente de respeito…

A Lena, filha do Gabriel – que estava infelizmente em casa acamado com uma crise de asma – mandava nesse dia nos fogões. Uma menina que conheci muito bem em Cascais quando ela estava a tirar o curso na escola de Hotelaria do Estoril. Hoje uma senhora com dois filhos adolescentes e que é na prática a alma dos fogões do clássico restaurante depois do falecimento de seu Pai.

Começámos com pouca pujança mas logo em níveis de excelência, com pastéis de massa tenra, empadas de galinha, croquetes de carne e presunto alentejano de boa e especiosa cura.

Avançámos depois para aquilo que os profissionais chamam “coisas sérias”. Não sei se sabem, mas neste tipo de refeições para avaliar receitas e cozinheiros é costume pedirem-se uma série de pratos que depois são divididos por todos os convivas, cada um deles dando seguidamente a sua opinião.

Nesta ocasião veio pescada cozida para o coitado do David, cujos olhos até choravam a olhar para o resto… E nós avançámos sem medo nem sequer receio para uma sopa de cherne à alentejana; pezinhos de coentrada; perdiz à moda do velho Convento de Alcântara; arroz de pombo. E foi com pena que terminámos com o borrego assado no forno (esplendoroso).

Obviamente que quer o Zé, quer o David (quer também eu próprio, mas num outro registo) éramos todos amigos desta casa e “compagnons de route” do Sr. Amor e do Sr. Gabriel, mas o certo é que nos deu muito prazer ver que a casa Fialho estava ainda ali para as curvas e, mais do que isso, que teria já na segunda geração (ou terceira) mão segura e braço de timoneira que auguraria uma calma passagem do testemunho quando fosse necessário.

Vinhos? Começámos com um branco sem pretensões, do ano de 2007, da Herdade da Pesseguina e evoluímos depois para um Tinto Soberana da gama média.

Para o final, uma garrafa do novíssimo Mouro de rótulo de ouro de 2005, que nos deixou de boca à banda e a cair para o lado em tudo, desde o preço – 95€ no restaurante, cerca de 50€ na produção – até à extrema qualidade.

Por acaso o enólogo produtor – Dr. Miguel Louro – que estava na mesa ao lado, logo se sentou ao pé de nós, discutindo as qualidades deste seu último “menino de ouro” porventura o melhor alentejano que até ali (e se calhar até hoje) me passou pela bem habituada garganta nos últimos anos.

Negro, retinto, de força hercúlea, cheio de especiarias e tabaco, ao fundo uma promessa de frutos pretos e de baunilha, que nos iria fazer esperar uns 3 ou 4 anos para vermos se concretizaria esta auspiciosa “abertura”. E – com a certeza do conhecimento futuro – posso afiançar que melhorou mesmo, se é que isso era possível face ao exposto.

Como uma garrafa se revelou “curta” o enólogo Dr. Louro não esteve para demoras e foi a correr ao carro buscar outra, que teve a mesma sorte da irmã. Bebeu-se todinha…

Acabámos em harmonia e beleza, com uns doces conventuais e um malte velho a aconchegar o café.

Quando saímos de Évora, já pelas 18.00h, vínhamos todos com uma beatitude espelhada nas faces rosadas, tal e qual como uns frades capuchinhos saídos do refeitório em dia gordo…

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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