Todos guardamos na lembrança situações que, por bem ou por mal, não conseguimos tirar da cabeça mesmo ao fim de muitos anos.

Deixando para trás falecimentos, casamentos e outras memórias do mesmo tipo gravadas na pedra, recordo aqui num conjunto de crónicas que começam hoje, alguns momentos inesquecíveis passados à mesa.

Em favor desta intenção cito Camilo José Cela, o grande escritor galego: ” tres resortes mueven al hombre: el sexo, el estómago y el afán de mando.”

E como não se trata aqui nem de sexo, nem de poder, tomem lá comes e bebes.

Um destes “encontros” deu-se há mais de 20 anos no Algarve, e no Outono.

Depois de partirem os “agostinhos” rumo aos seus países e suas ocupações -de acordo com a imortal canção de Bécaud – eu tinha feito o percurso inverso com a vontade de fazer uns dias, no final de setembro, na praia.

Chegado à Quarteira, povoação de S. Sebastião da Quarteira, com foral velho de D. Dinis, por opção estética recusei olhar para a selva de cimento já naquela altura  impunemente erguida frente ao mar. Aqueles edifícios para sibaritas encartados não existem: fazem parte de uma miragem deixada, por vingança, aos portugueses pelos últimos abencerragens árabes que partiram à frente dos cavalos de D. Afonso III.

Fazendo a marginal em direção ao poente depressa deparamos com Vilamoura, localidade que merecia ao tempo uma visita mais cuidada por causa da sua marina, pelo maior cuidado que foi posto no arranjo urbanístico mas sobretudo pela existência de alguns restaurantes despretensiosos localizados em frente ao mar, mesmo em cima da Praia de Vilamoura.

Estes restaurantes eram abastecidos diariamente pela riqueza piscícola do mercado da Quarteira, neles apenas se encontrando as mais frescas espécies de peixe local: pargos reais, salmonetes, robalotes, sargos etc…

Nesse mar ainda era possível apanhar o famoso camarão da Quarteira, magnífico crustáceo da ordem decápode, de corpo comprimido e querenado que chegava a atingir 15 centímetros de comprimento. Rei do marisco vivo da costa portuguesa, de sabor delicadíssimo, apenas suportava comparações gustativas com os melhores e mais frescos lagostins do lado atlântico.

A cozinha daqueles restaurantes “de praia”, como não podia deixar de ser, apostava nas mais simples preparações das matérias-primas notáveis: a grelha de carvão e a cozedura a vapor. E agora que não havia pressas nem pressão de turistas à espera de mesa e a barafustar, o tempo que todos tinham era o tempo necessário e suficiente para bem-fazer e bem comer.

O resultado final tinha de ser provado e dado a provar a todos aqueles que ainda negam ser Portugal o local do mundo onde a qualidade do peixe e do marisco é a melhor.

Essa refeição que não esqueço começou pelo tal camarão da Quarteira, simplesmente cozido e abominando qualquer tipo de acompanhamento em disfarce de molhos, nem uma simples mayonnaise.

Apareceram depois as ameijoas cristãs da Ria Formosa, negras e de dimensão apreciável, feitas à moda de Bulhão Pato. O molho guloso foi servindo para molhar o pão de mistura.

Seguiu-se uma proposta que tinha sido a sugestão inicial do proprietário, o salmonete, grelhado no carvão “com tudo”, isto é, sem ninguém ter tido a ousadia de o despir das escamas, tripas ou dos fígados. Comeu-se com muita calma, apreciando-se como merecia o fígado barrado em uma tosta de pão de centeio e sem mais nenhum acompanhamento.

Que beber? Não querendo complicar as coisas depois de tanto trabalho pediu-se um alvarinho Palácio da Brejoeira, que acompanhou a refeição do princípio até ao fim. E ficámos muito bem.

Acabou-se a refeição com um “toucinho-do-céu” na interpretação alentejana – qualquer dia falo aqui das várias roupagens desta sobremesa célebre – e uma aguardente velha de medronho, que era notável.

Nessa altura do campeonato saiu da “cartucheira” um Hoyo de Monterrey Epicure nº 2.

Apreciou-se longamente, olhando o mar e filosofando sobre a má sorte dos veraneantes de agosto, condenados a viver em colmeia e longe destas mordomias

E só nos faltou para atingirmos o estado puro do hedonista, no dizer de meu mestre Vinícius de Morais, “uma rede para nos estendermos e um gato para passarmos a mão…”

Rede ainda arranjámos, em sentido figurado. Agora, um gato é que não conseguimos encontrar…

Nota: O restaurante onde esta epifania se deu chamava-se (e felizmente ainda se chama) “Casa da Praia”.

Texto de Manuel Luar

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