Na altura em que o “Blues Café” (nas Docas do Porto de Lisboa) estava no seu auge  – e em que nem sequer se falava muito da noite de “Halloween” em Portugal –  era costume essa dita “noite das bruxas” importada dos anglo-saxões ser de farra maior na casa de diversões noturna citada. Escrevo “farra maior” que não devemos confundir com a “faina maior” de toda a frota pesqueira nacional, que era naquela época a epopeia do bacalhau.

Tínhamos de ir ao “Blues” uns dias antes reservar uma mesa para o jantar. A procura era muita, o que valia é que nós éramos clientes de “garrafa” e por isso preferidos quando tocava a fazer o rateio das mesas.

A  decoração completa metia abóboras, vassouras, espantalhos e o clássico “palhaço maléfico” (do excelente “It” de Stephen King). As meninas e meninos dos bares estavam vestidos a preceito, a música, que era normalmente baseada em BB King “y sus muchachos”, nessa noite recebia uns toques de magia. Havia concursos de máscaras pretensamente assustadoras mas que só nos faziam rir, e artistas ao vivo.

Observado em retrospetiva e em termos de cultura “Pop”, as figuras de sala e os concursos não eram comparáveis ao que se pode hoje ver e ouvir lá para os lados da “Comic Con”, agora em Oeiras.

Mas estávamos em 1996, o rei dos “blues” tinha estado no Coliseu e passara pelo Blues Café, onde ficara a placa comemorativa da visita “real”. Na SIC tinha começado a “Grande Reportagem” e o “Contra Informação”. Eu conduzia naquela altura um dos melhores veículos que já me passaram pelas mãos, um Toyota Carina E.  Fez  mais de 200 000 km sem nunca ir à garagem, a não ser para as revisões e trocar de pneus.

A “CMTV” não existia. “Troikas” eram coisas que se liam nos livros do Pasternak e do Pushkin. “E – Toupeira!” seria um grito de algum lavrador aflito lá nas Beiras, porque os ratos-toupeiras lhe andavam a comer as colheitas. A moeda “Euro” já se adivinhava à distância, mas ainda não tilintava nos bolsos de ninguém.

Portugal  estava bem. Dizia o circunspecto Banco de Portugal sobre o ano em causa:
“A evolução da economia portuguesa, em 1996, foi marcada pela continuação do processo de desinflação, o aumento do crescimento económico — impulsionado pela aceleração do investimento — a estabilização da taxa de desemprego, e a redução do desequilíbrio orçamental.”

No recibo que guardei dessa Noite das Bruxas de 1996 (uma quinta feira)  no Blues Café estava inscrito o valor: 6 jantares – 15 000$00.

E recordo-me, melhor dizendo, lendo do papel, porque hoje a minha memória parece um cartão perfurado dos primeiros computadores,  que tivemos direito a: gins tónicos, entrada, prato principal, sobremesa e 4 garrafas de vinho, duas de Alvarinho e duas de vinho tinto – Aliança Garrafeira de 1992.

A seguir à sobremesa veio a garrafa de Jack Daniels para a mesa, a qual se deve ter bebido toda, porque lá estava mais um “recibo” a testemunhar o gasto: garrafa de Bourbon – 8 000$00.

Na prática saiu a noite por 23 continhos dos antigos para seis pessoas. Entrámos às 22h e saímos às 6h da manhã seguinte.

Na época almoçava bem em Lisboa por um conto e duzentos, com tudo a que tinha direito – queijo fresco, alta posta de garoupa cozida, garrafa de vinho, café e whisky.

Por isso consideraria “cara” aquela despesa da noite das bruxas.

Hoje 23 000$00 seriam 115 euros… O preço de um almoço para duas pessoas  em casa de categoria semelhante, desde que tenham cuidado com o que bebem.

O tempo não volta para trás, nem eu o desejaria. Mas é engraçado “pescar” estas reminiscências de há 20 anos atrás.

O Blues-Café das Docas de Alcântara está fechado. Li algures que no local do venerável Hot Club, na Praça da Alegria,   teria aberto um “Fontória Blues, Café & Dinner” em 2003, mas está igualmente encerrado nos dias de hoje.

Jazz é mais fácil de ouvir ao vivo em Lisboa e no Porto. O Hot Club – decano dos bares de Jazz na Europa – ainda existe e recomenda-se, está claro, na mesma Praça da Alegria, mas agora no nº 48. E temos ainda o Titanic sur Mer; o Páginas Tantas; as instalações em Braço de Prata; o Hot Five, e o Jazz Story, estes no Porto, etc…

Mas bar-restaurante dedicado aos Blues não conheço. Se existisse é muito duvidoso que por lá pagasse hoje 115€ por seis jantares completos  e uma garrafa de Jack Daniels… Acho eu.

Texto de Manuel Luar
Fotografia de  Scott Gruber, disponível via Unsplash

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