Recordo desta vez o Restaurante Funil de antigamente e um episódio engraçado lá passado.

Esta clássica casa de comer no centro de Lisboa (Avenida Elias Garcia) tinha alguns pratos emblemáticos como o Bacalhau à Funil, no forno com puré de batata e bechamel, ou as Ameijoas à Funil, com fina cebola picada e natas, mas – de uma forma geral – todos os pratos de cozinha tradicional se recomendavam, assim como os peixes para cozer ou para grelhar que enriqueciam o escaparate do dia.

E – já que falo de cozidos e grelhados – acrescento que sempre existiu no Funil um azeite extra virgem notável, sem marca, oriundo dos olivais dos proprietários.

Era naquela altura um dos locais que frequentava pelo menos uma vez por semana, e confortava-me encontrar – tanto ao almoço como ao jantar – uma série de caras conhecidas que eram clientes quase desde a fundação. A fidelidade costumava ser, e continua a ser, um bom indicador da qualidade.

Voltando à “estória”, estava eu sentado à mesa no restaurante Funil da Av. Elias Garcia, numa Terça-feira de Carnaval. Sozinho matutava que mal teríamos nós feito para nos porem a trabalhar naquele dia (naquele tempo era assim, a maior parte do povo tinha feriado, mas algumas empresas não aderiam por não ser obrigatório).

O senhor Caetano – um dos sócios antigos, o outro era o cozinheiro e amigo Sr. Luis, ambos “fugitivos” do antigo e também muito recomendável restaurante “O Polícia” – estava habituado há minha presença e ao facto de eu normalmente ir ali comer a cabeça de pescada, de garoupa ou de cherne, cozida e apresentada sobre um alvo pano branco, para aparar a água, servida com todos os acompanhamentos: batatas, grão de bico, brócolos, cebola, ovo e, no tempo deles, os grelos.

Nessa Terça-feira, vendo-me macambúzio e sem ter peixe  como era habitual  na montra para oferecer – tinha passado o Domingo, fechavam à Segunda-feira, e no Carnaval era feriado para os armadores de pesca, – perguntou-me se eu gostava de arroz de cabeça de peixe.

Já naquele tempo eu  gostava de tudo que fosse bem feito. Pelo que a resposta foi afirmativa. Mas com algum receio olhava pelo canto do olho para a montra onde costumavam estar os belos exemplares de peixes frescos inteiros, e que naquele dia mostrava apenas bacalhau, ovas, chocos e lulas…

Estive mais de meia hora à espera, com gosto e sem ansiedades, já que fazer as coisas “no momento” significa mesmo isso, esperar o tempo que os pratos levam a fazer. E quem não sabe esperar por esses mimos é porque não os merece.

Na altura devida lá veio o tacho de barro rescendendo com perfume de coentros.

Terá sido à segunda ou à terceira garfada que percebi que no tacho…não havia peixe.

Havia ameijoa preta do Algarve, da “cristã”, que no Funil usavam na “marinheira de ameijoas”,  havia  camarões e gambas descascadas,  existiam ainda 3 lombos de lagostins a decorar. E na calda do arroz notava-se bem o trabalho manual que consistia em fazer o “piso” das cabeças dos lagostins.

Lembro-me que nessa altura (seria para o final dos anos 80 do século passado) costumava acompanhar o peixe fresco com o vinho branco seco da Quinta de  Camarate, que  ainda não tinha alvarinho no lote. E foi o que fiz.

Admirado pela largueza mas contido nos reparos, regalei-me, lambi os beiços várias vezes e pedi a conta à espera de uma “enormidade”. E como um dia não são dias e perdido já eu julgava estar, antes disso ainda mandei vir um whisky de malte velho.

O valor a cobrar pelo arroz de bom marisco anunciado como sendo “de peixe” foi mais ou menos o que eu costumava pagar pela cabeça de pescada cozida. E quando questionei o Sr. Caetano, a resposta que levei foi mais ou menos esta:

-“Então um cliente como o senhor entra aqui, eu não tenho na montra o que costuma comer e há-de ser mal tratado? Ora essa!”
– “Mas então porque não disse que o arroz era de marisco (e com lagostins?)”
– ” Porque não queria preocupá-lo com o preço…Depois já não apreciava o arrozinho…”

Era o Sr. Caetano um beirão “à maneira”, um homem onde se demonstravam as maiores virtudes dos “serranos”, que têm também os seus defeitos, mas a receber são inexcedíveis.

Não existirão muitas pessoas em qualquer país deste mundo com tanta qualidade.

Nota: A casa que hoje existe no mesmo local e com o mesmo nome de “Funil” não tem as características do antecessor e não honra a memória do Sr. Caetano e do Sr. Luis. Infelizmente.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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