Com a introdução que segue, à moda de um romance policial de Raymond Chandler, poderá parecer que eu ainda me lembro da WWII. Não é verdade. Nasci em 1955, que por caso foi grande ano de vinho do Porto.

Mas sem interromper mais aqui deixo a “estória” inesquecível desta semana.

Corriam os anos da Segunda Grande Guerra. Em Portugal, sobretudo em Lisboa e Cascais, fervilhavam os espiões dos dois lados, que estranhamente se davam de forma pretensamente afável enquanto frequentavam o Casino Estoril, durante a noite, e os muito bons restaurantes da linha durante o dia.

Havia na zona um bar que – segundo reza a lenda – era propriedade de um espião inglês. Chamava-se “English Bar” e era debruçado sobre a Marginal mesmo à entrada de Cascais, na localidade do Monte Estoril.

Quem leu Sttau Monteiro (Angústia para o Jantar) recorda-se das referências ao “English Bar” – um dos locais mais “in” da capital – e onde não era de bom-tom que os grandes senhores levassem as amantes, devido à seleta clientela da realeza europeia exilada e da alta finança local que o frequentava diariamente.

Na posse da família de José Manuel Cimas (Sobral) desde que o tal espião inglês achou por bem ir para outras paragens quando acabou o conflito, esta verdadeira montra de grandes personalidades (que não tinham nada a ver com o jet-set televisivo e revisteiro que atualmente nos infesta) conheceu altos e baixos, em função das oscilações da carteira e do paradeiro dos seus habituais frequentadores.

Mas de todas as formas – em anos bons e menos bons para o país, economicamente falando –  sempre se comeu muito bem no “English Bar”.

Era a senhora mãe do atual proprietário que organizava a cozinha e que lá deixou grande parte do receituário que ainda hoje se utiliza. A caça era tradicional, já que toda a família do proprietário caçava, bem assim como alguns dos seus clientes habituais, que traziam as peças de caça e eram “pagos” em refeições.

Lembro-me de uma das passagens de ano (de 2001 para 2002) onde fui lá jantar – éramos quatro – tendo comido e bebido como reis.

É a história dessa noite memorável que aqui trago.

Havia uma ementa de “fim-de-ano” que começava com “Lagosta à Armoricana”, seguia caminho com “Rins de Borrego Flambées com arroz de passas e amêndoas” e acabava com “Crepes Suzette”.

Devo dizer que aqueles eram os melhores Crepes Suzette do país, incluindo os do “primo” Gambrinus da Rua das Portas de Santo Antão.

Mas para além da impecável execução dos pratos da ementa, o que tornou a ocasião assinalável foi o facto de podermos escolher os vinhos fora das sugestões daquela noite, o que nos permitiu explorar a extraordinária adega do restaurante.

Beberam-se duas garrafas de Champagne Ruinart Blanc de Blancs, o que embora excelente não seria nada de extraordinário.

Mas depois vieram para a mesa – por sugestão do gerente e proprietário – dois vinhos tintos de enorme qualidade, ambos de 1980: Quinta do Côtto Grande Escolha e Ferreirinha Reserva Especial.

Sobre este último convém dizer que a circunspecta Sogrape terá admitido uns anos mais tarde, em círculo de pessoas “lá de casa”, que aquele vinho de 1980 deveria ter sido classificado como Barca Velha.

Estavam soberbos aqueles dois Douros de alta estirpe. Apesar da idade – mais de 20 anos. O que só demonstra que grandes vinhos portugueses, se bem guardados em caves preparadas, aguentam tanto ou mais como os vinhos franceses, espanhóis ou italianos.

E se tivéssemos de escolher haveria alguma dificuldade em decidir qual o melhor. Muito “apertado”, do tipo de ter uma pistola apontada, lá acabaria por dizer que o melhor seria o Reserva Especial. Mas se desse 20 valores a esse, o outro teria 19,5 valores.

Em relação a esta matéria dos Reservas Especiais e Barca Velha já muito se escreveu. Recordo aqui Miguel Pires:

“Sempre que se fala do Reserva Especial, lá vem a comparação com o Barca Velha. A verdade é que se houve algumas dúvidas em colheitas passadas, como na de 1980, em que muitos afirmam que deveria ter sido elevada à categoria máxima, outras houve que levantaram dúvidas, mas em que o tempo se encarregou de confirmar a opção acertada.” 

Já um bocado “para lá do Marão”  – éramos quatro a dar conta de quatro garrafitas,  fora o resto que não contei porque não escrevi e não me lembro –  recordo-me ainda da animação que foi vermos o Sr. Cimas, proprietário, em cima de uma mesa a bater com as tampas das panelas, à meia-noite, observando todos das suas esplêndidas janelas o Fogo-de-artifício na Baía de Cascais.

Nota: O Restaurante em causa, agora com o nome “Cima’s” mantém-se no mesmo local de sempre, e sempre com a mesma gerência. E continua a servir muito bem quem por lá passa. Dá gosto sabê-lo e divulgá-lo.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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