Estava-se em dezembro e chegara a hora que todos mais ou menos temem, ou temiam quando o mundo era menos complicado: conhecer os pais da nossa namorada a caminho de ser noiva.

Nado e criado na linha de Cascais, urbano de corpo e alma, o relator deste notável acontecimento terá comentado para os seus botões como iria aguentar tantos dias na serra da Estrela…

No fim de contas, o entretenimento não devia abundar, a Internet ainda não era opção, e salas de cinema havia só uma em Seia que passava reprises.

Como eu me enganava…

Mas vamos por partes.

Os meus sogros pertenciam a uma família de lavradores, comerciantes de gado e pastores. A quintarola estava há gerações nas mesmas mãos, e, para além da horta e dos animais de capoeira para consumo próprio, produziam ainda para vender batatas, cebolas, feijão, milho, e… uvas.

Há mais de 150 anos que aquela pequena casa agrícola vinificava as suas uvas, para consumo próprio e para vender às muitas tabernas da zona que só dentro daquele pequeno povoado eram oito.

Naquele ano de 1981, estava o meu futuro sogro preocupado com o grave problema do “vinho branco que só há pouco tempo parou de ferver”, fator que muito influenciava a ocupação das gentes  lá para cima, e a minha, como veremos e por consequência da presença no local.

Ora o “vinho branco” era socialmente importante como passo a explicar.

Ali, na serra, existiam algumas obsessões. Uma das mais me impressionou naquela altura em que ainda era imberbe neófito tinha que ver com o “branco da manhã”.

“Branco” era mesmo o vinho branco. E “branco da manhã” queria significar a mania serrana de só beber vinho branco antes do almoço, guardando o tinto para a escaramuça com as vitualhas desse mesmo almoço e para depois, seguindo a rota definida até à hora da “sossega”.

Muitas vezes perguntei  a mim mesmo se bebiam vinho branco antes do almoço por pensarem que teria menos álcool, ou se tinha que ver com a cor, já se sabendo que cores mais claras traduziriam hipoteticamente uma bebida mais “leve”, mais “de damas”…

Seria isso tudo, mas também por algum recato. Beber vinho de manhã não era, nem é, nem será, a melhor forma de começar um dia de trabalho em locais normais. E assim o “branco” pareceria menos mal do que o “tinto”.

Voltando ao Natal desse ano, estive em casa dos que haveriam de ser meus sogros entre o dia 22 e o dia 27 de dezembro. E nesse período a minha ocupação diária era mais ou menos como segue:

Acordava às 6h – obviamente que fiquei hospedado na Estalagem de Gouveia porque ainda não era casado – e ficava a olhar para o relógio à espera que fossem horas de levantar. Ia buscar a futura companheira de vida à quinta e pelas 9h tomávamos o pequeno-almoço e comprávamos os jornais.

Quando chegávamos outra vez à quinta eram 10h e, segundo o meu sogro, estava na altura de ir à adega ver se o “branco” já estaria em prova…

Dentro daquela sacristia de pipas teciam-se muitos reparos ao tempo que estava muito mudado, aos adubos adulterados, ao vasilhame que não se comportava como devia (com o “branco”, porque com o vinho tinto nada disto acontecia)… Mas nunca  se punha em causa a qualidade do enólogo e adegueiro, dono da casa.

Como o “branco” ainda não dava a tal “prova” bebia-se um copito do tinto à espicha para justificar a deslocação à adega – ainda eram, e são, 18 degraus para baixo, outros tantos para cima e 6 metros de caminho de pedra…

Repito que ainda não tinha batido a avé-maria das 11h da manhã no relógio da igreja.

Punha-me a tentar ajudar ao almoço, mas era logo expulso da cozinha pelas santas mulheres, cujos hábitos não toleravam homem de calça e barba no seu santuário.

E lá vamos para a mesa às 12h. Come-se bem, bebe-se muito bem, vê-se o noticiário e depois arruma-se a cozinha.

Pelas 15h é altura de dar mais uma saltada à adega, pois podia ser que entretanto o “branco” tivesse mudado de carácter (ou lá o que é).

Ainda nada.

Por isso, bebia-se um copito de bagaço geladinho para justificar a deslocação.

A meio da tarde era altura da minha cachimbada, lendo à lareira alguma coisa do muito que levei.

As linhas dos livros encavalitavam umas nas outras rapidamente e não tardava muito que a namorada me viesse abanar a rir, dizendo que os meus roncos até tinham assustado as ovelhas que pastavam no lameiro em frente à casa.

Pelas 18h começava outra vez a azáfama na cozinha para preparar o jantar.

Mas antes disso (já adivinharam), ia-se outra vez à adega, desta vez acompanhados por amigos, que entretanto chegaram, para ver o “estado do branco”.

Como infelizmente o “branco” ainda não se podia beber, havia que oferecer aos amigos um tinto, para justificar a deslocação deles (e nossa) e em sinal de solidariedade.

Teciam-se então – e outra vez – muitas considerações sobre o tempo, os adubos, o vasilhame, etc.

Dada a demora neste conciliábulo fraternal, cortavam-se lascas do presunto pendurado no teto, abria-se à navalha queijo velho e havia que beber mais uns copitos de tinto antes do jantar…

Jantava-se então. E depois, enquanto alguém arrumava a cozinha, fazia-se a última romaria daquele dia à adega (exatamente!)

Dadas – infelizmente – as condições do “branco” manterem-se estáveis, bebia-se mais um bagacito geladinho, para a sossega.

Esta (a sossega) chegava mais cedo do que parece… Sem contar com a minha sogra que se pendurava nas telenovelas, eu às 23h já estava a serrar presunto sem osso, não tendo bem a ideia de como é que o Fiat 124 tinha feito o trajeto para a pousada.

Lembro-me de ter pensado que ou o malvado do “branco” rapidamente “desdobrava” ou “aclarava” ou fazia aquilo que que os vinhos tinham obrigação de fazer nos tonéis, ou então ainda eu saía dali não para a igreja onde devia casar dentro de dois meses, mas sim para a lista de espera dos transplantes hepáticos…

Obviamente que por culpa do tempo, dos adubos modernos e do vasilhame.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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