Para além da vontade de ver os amigos e familiares, o Natal na Estrela também era repositório de pequenos mimos muito bem-vindos: os queijos da serra em todo o seu esplendor de envelhecimento, o pão de ló quentinho a sair do forno. E o borrego ali criado no pasto para a mesa do dia santo.

Aproveitava-se esta altura do ano para dar um salto ao Centro de Estudos Vitivinícolas de Nelas, para ver o que se poderia lá comprar, combinava-se um forrobodó com os amigos e parentes, lá mais para o final de alguma tarde…

Na primeira vez que entrei na quinta da família da minha mulher ainda não era casado, e todas estas novidades faziam brilhar aqueles olhos de citadino ignorante.

Existiam “cerimónias” que aqui em Lisboa pareceriam estranhas, como a de ir ter com o pastor ao rebanho apartar um borrego para o dia de Natal, ou a patuscada feita à porta do lagar, com fogueira no chão a assar lentamente bacalhau pela noite dentro, enquanto as nossas azeitonas eram tratadas.

A “cena” do borrego nunca mais a esqueci.

Seria já noite profunda e fazia um frio de rachar. Metemo-nos ao caminho com calças por dentro das galochas e com uma garrafa de cerveja Sagres de litro, cheia de bagaço (para dar ao pastor).

Esse pastor fazia há dezenas de anos um negócio com a família: guardava e alimentava o rebanho nos pastos em frente à casa e, em troca, fornecia borregos e queijos.

Dando conhecimento da vinda ao mestre do rebanho, e estando este já à conversa com a garrafa de bagaço, foi-nos mesmo assim dizendo para escolhermos o borrego que quiséssemos. “Estão já ali à frente”.

Estavam os borregos ao pé das mães, mas estavam também quatro cães da serra, um macho gigante e três cadelas…

O pastor tinha avisado que o macho era bonacheirão. Mas que tivéssemos cuidado com as cadelas! Eram más como as cobras…

Imaginem a noite escura, uma lanterna de pilhas, duas almas penadas a apalpar ovelhas e borregos e mesmo ali ao lado três cadelas a rosnar violentamente, sempre mais próximas dos nossos fundilhos.

Escolham um borrego? Assim de noite o problema era confundirmos os bichos, agarrarmos algum carneiro pela parte de baixo e levar uma marrada. Entre o perigo real de marradas e dentadas ficámos foi os dois encostados a uma oliveira a chamar pelo dono daquela corja de feras.

Uma aventura que só terminou a bem com o pastor a gritar com os cães e a dar-nos para a mão um borrego vivo e a mexer, que berrava pela mãe até chegar a nossa casa.

A ceia da consoada era um banquete: Filetes de polvo, filetes de bacalhau, bacalhau cozido com todos os acompanhamentos, leite-creme e arroz doce feitos com leite de ovelha e ovos caseiros, o célebre pão-de-ló com receita daquela que viria a ser minha sogra e, a terminar, um queijo do ano passado, a rescender de perfumes e sabores fortes.

E no dia de Natal brilhava o tal borrego “caçado” à mão três dias antes com tanto trabalho, assado no forno de cozer o pão, com batatinhas assadas e ervas grossas, o esparregado de nabiças cortado grosseiramente à faca.

Para além das sobremesas da véspera fazia-se de propósito para essa altura os sonhos de gila e aguardente que eram malandros. Quando comidos quentes não se dava pelo álcool e empiteiravam as senhoras.

Normalmente estávamos à mesa no dia 25 por volta da 13h e só nos levantávamos para receber os parentes com os doces e o queijo, lá para as 17h.

Os vinhos  branco e o tinto eram feitos na propriedade e apresentados com orgulho nesse dia. E para terminar em beleza as hostilidades abria-se uma garrafa com uma bagaceira velha, com mais de 30 anos em madeira de carvalho, carinhosamente feita pelo avô Caetano.

Jantar desse dia 25 não havia. Quem queria comer qualquer coisa que trouxesse para a mesa presunto, queijo e algumas das febras que tivessem sobrado do borrego, para fazer sandes.

Um dos casos estranhos desse dia era que todos juravam e trejuravam que depois do almoço  “mais nada podiam comer!”. “Estavam cheios até cima”.

Mas depois de verem a toalha na mesa e a dona da casa a cortar presunto lá se iam “arrimando”.

Ao fim de 37 anos a maior parte dos intervenientes nestas festas de 1981 já não existe neste mundo. O rebanho (os descendentes) mudou de mãos pelo menos três vezes. Hoje não conheço o pastor, nem ele continua a usar o lameiro da nossa quinta.

Creio que algumas destas tradições ainda ocorram, mas já não juro. O tempo passa. E as pessoas também.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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