Quando chega a Primavera devem despertar as vinhas. Começa a floração, os bagos irrompem, pequenas “ervilhas” verdes que com a ajuda do sol e de alguma água vão ganhando outra dimensão e cor. É a altura – falo do Dão, que é a região que conheço melhor – em que os proprietários percorrem as vinhas, tentando ajuizar como está a acontecer o desenvolvimento do ano agrícola para as suas uvas.

Estarão adiantadas ou atrasadas? E começam logo a prever a data da vindima, fantasiando sobre chuvadas e trovoadas de maio e junho, algumas com granizo a acompanhar.

É durante a Primavera que a videira está “tenra” e mais sensível e sujeita a malfeitorias, vulnerável às doenças e às granizadas, pelo que se compreende a preocupação.

Por outro lado, o vinho do ano anterior estará agora em processo adiantado de composição, sobretudo o que era feito em casa e que se provava sempre na altura da Páscoa.

Uma tradição desta altura do ano – enquanto ainda havia grelos de nabo nas hortas – consistia em ir para debaixo dos pinheiros, ao pé da vinha, comer com alguns amigos os “grelos à moda do pastor”, aproveitando para provar o vinho novo.

Coziam-se numa panela de ferro troços generosos de chouriço, morcela, farinheira e um bom toucinho entremeado. Reservavam-se as carnes. Na água desta cozedura juntavam-se grelos de nabo e algumas batatas. Depois de tudo cozido levava-se para o campo dentro da panela “abafada” por manta de lã. Lá chegados temperava-se com um bom azeite, deitava-se nos pratos fundos e começava o festim.

Na mitologia popular das províncias a trovoada teria o poder de alterar o vinho. Os adegueiros temiam essas trovoadas e corriam para as adegas para ver se os relâmpagos e os trovões não teriam alterado o conteúdo das barricas.

Há uma história curiosa sobre o vinho e as trovoadas que conto aqui:

Um dos nossos vizinhos na Beira Alta, o Tio Santidade,  abusava do “tintito” de manhã, à tarde e ainda à noite. Era vinho do seu, feito por ele, mas tinha grau como os outros…pelo que a  sua mulher, quando podia, tirava-lhe o  jarro da vista para que ele não se lembrasse de beber.

Uma vez o nosso vizinho levou o tal jarro com a pinga para o terraço, veio para dentro e nunca mais se lembrou  que ali o deixara, até que desata a cair uma carga de água com raios e trovões à mistura.  Vai a senhora mulher a correr  para retirar o jarro da chuva, mas o mal já estava feito. Tinha entrado água lá para dentro.

O Tio Santidade, já um bocado “entornado” da cena de copos daquela manhã, tira-lhe o jarro da mão, vaza para um copo, prova e logo disse:
“- Os antigos é que tinham razão. O barulho dos trovões dá cabo de qualquer vinho! Fica todo remexido! Olhem bem para este que não se parece nada com o que bebi de manhã!”

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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