Nos meus tempos de jovem assistente universitário fui um dos fundadores dos estudos superiores no nosso Algarve.

Nada de formal nem relacionado com o Ministério da Educação.

Apenas um grupo de professores do ISCTE que viajava duas vezes por mês, aos fins-de-semana, para Faro. E nessa cidade dava aulas de 4 ou 5 horas, preparando os nossos alunos algarvios para virem fazer os seus exames a Lisboa.

Estávamos em 1978. O país era novo em tudo. Na democracia e nas estruturas. Na vontade de fazer e na vontade de aprender.

E o que hoje pareceria “negócio”, naquela época era corriqueiro, gratuito e benfazejo.

Íamos de boa vontade, sempre “pro bono”. E os nossos “alunos”, cientes do sacrifício, tratavam-nos como reis.

Foi ali que conheci uma tasquinha perto do Liceu do Faro, mas já no bairro dos pescadores. Uma casa particular que pertencia a um casal, sendo ele “marisqueiro”, trabalhando nos viveiros das ameijoas, e ela a cozinheira, empregada de balcão e “merceeira”.

Naquela morada vendia-se bacalhau ao quilo, azeite e óleo, feijão e grão, batatas e alfaces. E conservas.

Havia um livro de rol com as dívidas das famílias dos homens do mar, que vinham pagar no fim do mês. Quando não podiam pagar em escudos pagavam em peixe e marisco das suas campanhas.

Nesse local – longe da ASAE e da Autoridade Tributária (que nem existiam) – por marcação faziam-se refeições.

Eu, nessa altura da minha vida, não sabia nada da gastronomia regional.

Quando provei as verdadeiras ameijoas pretas, de calibre apreciável, parecia que estava a aprovar um bocadinho do céu…

Para além da ameijoa grada, aberta ao vapor, faziam sempre parte da ementa os choquinhos infantes, fritos com a sua tinta; o lingueirão em arroz caldoso; as papas de Xerém com as ameijoas mais pequenas. E terminava-se sempre com um espetacular bolo de alfarroba.

Vinho era melhor sermos nós a trazer. O que havia na casa não prestava.

Mas aguardente de verdadeiro medronho de Monchique havia da melhor que se poderia fazer (e beber).

De uma das vezes em que calhou lá irmos jantar – depois de largas horas de aulas de matemática – a dona da casa tinha acabado de receber em pagamento de dívidas atrasadas um “pargo-de-mitra”, assim chamado pela protuberância que lhe escapava da fronte.

Não havia tempo para o assarmos no forno – como competia a tão nobre animal.

Mas como os nossos olhos não largavam o peixe, a “patroa” lá se convenceu a fazer uma sopa de peixe com as lascas que se podiam libertar da cabeça e do rabo, guardando as postas do meio para o dia seguinte, para cozer ou grelhar.

Essa sopa de peixe está guardada na minha memória. Tinha ameijoas das “cristãs”, tinha hortelã da ribeira, tomate fresco e pimento verde também fresco. Era espevitada pelas massinhas de cotovelo. Para enfeitar tinham posto por cima três ou quatro camarões grandes da Quarteira.

E depois de tanta “secura” com a discussão da Desigualdade de Chebyshev, resultado fundamental da Teoria da Medida aplicada ao Cálculo de Probabilidades, uma sopa rica como esta caiu que nem ginjas…

Soube a todos como se fosse o melhor dos manjares celestiais. E era.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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