Estávamos na década de 70 do século passado. O primeiro número do Expresso tinha saído em 6 de Janeiro de 1973.

Numa época em que não existiam periodicamente as “feiras de queijos e enchidos” em quase todos os supermercados das nossas cidades, era habitual que os produtos tradicionais portugueses fossem considerados como propostas de grande requinte – pela raridade – quando algum restaurante de Lisboa ou do Porto os apresentava aos seus clientes.

Esta forma de estar generalizava-se ao azeite e até aos vinhos, cujo abastecimento regular dependia muito da distribuição existente nos grandes centros, sendo esta limitada às marcas mais conhecidas e poderosas.

Desta forma os consumidores que sabiam apreciar as coisas boas – e que as pagavam – dependiam da boa vontade dos proprietários dos restaurantes ou das mercearias mais modernas e requintadas, que faziam muitos quilómetros para terem em sua casa produtos que não eram conhecidos do grande público naquela altura, mas que tinham muita qualidade.

Os queijos de Serpa eram do Bule, os presuntos alentejanos eram de Barrancos ou de Ourique, quando se ia à Estrela era mister trazer-se a carrinha carregada de queijo artesanal da Arrifana ou da Aldeia da Serra, o medronho de Monchique tinha assinatura “Água da Sola”, as ameijoas gradas e cristãs (pretas) vinham da Ria Formosa, e assim por diante.

O Sr. Almeida, ilustre proprietário do Méson Andaluz, então na Parede junto ao mercado, fazia as suas viagens quase clandestinas a Pedroches, na Andaluzia, para trazer os melhores “Jámones” escondidos no carro. Um deles já se sabia que ficaria na fronteira. Era a “taxa alfandegária”.

Quando conheci um dos meus tios (obviamente que era tio por afinidade) era ele já um distinto comerciante em Cascais e no Estoril, mas começara a sua vida de trabalho aos 12 anos, como empregado de uma mercearia familiar ali da zona. Subira a pulso, a entregar alcofas de vitualhas em casa dos clientes mais ricos, muito poupara e por isso estava agora bem na vida. Por isso e pela sua reconhecida esperteza saloia.

Com quarenta e muitos anos era sócio de um dos primeiros supermercados da Costa do Sol, onde existia um talho reconhecido pela qualidade, e único proprietário de uma charcutaria “topo de gama” dedicada aos tais produtos artesanais.

O meu tio Fernando era esperto e identificara um nicho de mercado naquela área: o dos residentes estrangeiros de posses que ali ficaram pelos “Estoris” atraídos pelo clima, pelo baixo custo de vida e pela qualidade dos comes e bebes nacionais.

Tinham dinheiro e desde que gostassem e não se sentissem explorados voltavam sempre e tornavam-se clientes muito bons. Para eles importava pastas de trigo duro, molhos e azeites de Itália; queijos, foie-gras, patês e vinhos de França; presuntos e salsicharia tradicional de Espanha, etc…

Estes produtos eram normalmente muito caros por causa dos direitos alfandegários, e por esse motivo os clientes encorajavam-no a procurar alternativas no nosso país.

Por isso tinha sempre uma mostra notável dos tais produtos portugueses artesanais de qualidade. Que iam dos queijos de ovelha até aos vinhos e azeites das adegas cooperativas que por essa altura começavam a despontar. E tinha também sempre as “estrelas da companhia”, que eram os grandes vinhos do Mouchão, as Reservas da casa Ferreirinha, o Palácio da Brejoeira e outros que tais (não eram muitos).

O meu pai e eu eramos sempre “convidados” para colaborar nas contagens anuais do inventário da loja, o chamado “balanço”. O meu tio não enriquecera a pagar por serviços que poderia ter à borla, explorando os membros da família.

E nós não nos importávamos porque à conta disso comíamos e bebíamos lá nas traseiras da charcutaria do melhor que estava nas prateleiras. Ou, melhor dizendo, dos melhores produtos que estavam quase a passar de prazo de validade…

Numa dessas ocasiões (sempre depois do Natal) reparámos que havia garrafas de um grande marca de vinho alentejano que tinham todas o mesmo rótulo, mas que apareciam nas faturas como sendo de vários anos diferentes e até de qualidades distintas com preços de aquisição substancialmente mais baixos. Parecia o milagre de Caná…

Muito instado o tio Fernando lá deixou escapar que comprava na adega os rótulos de um ano considerado muito bom – o adegueiro era um bom amigo, e sempre fazia assim mais uns cobres para levar para casa – e que os colava depois lá na charcutaria, nas garrafas que tinha comprado de colheitas inferiores. Como “era para estrangeiros”…

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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