Há quem diga que a batata “é uma religião”.

Para muitos, comigo incluído, esta era uma hipérbole aceitável para referir que qualquer prato da nossa cozinha tradicional onde entre a “senhora batata” será tão bom quanto boa for a qualidade da dita batata.

Mas nem tanto ao mar nem tanto à terra. Imaginem que fiquei a saber – com algum espanto – que existe mesmo a sério (enfim…) a religião suprema da “Grande Batata”, denominada por “Batatismo”….

Voltando à “batata” da gastronomia, o acompanhamento mais comum da carne e do peixe nos pratos, devo dizer que não sei como se escolhem atualmente as sementes, de que formas são melhoradas tendo em vista a produção, e outros detalhes.  

O assunto é complexo. No Centro Internacional das Batatas (em Lima, Perú) está guardado para memória histórica da humanidade o banco de germoplasma deste tubérculo, que possui a cópia de todos os tipos de batatas conhecidas no mundo.

São mais de 4 mil tipos de batatas. É obra…

As batatas podem ainda hoje constituir um prato por si só. Aliás eram consideradas a “comida do pobre” em muitas regiões do mundo, como está documentado no célebre quadro de Van Gogh “Os comedores de batatas”.

A história desta semana gira em volta da minha necessidade de ter boas batatas em casa, sendo que estava a ficar desconsolado pela falta de qualidade do material à venda em Lisboa e arredores.

Desejava a batata da qualidade “raja”, que se cultivava na nossa quinta da Beira Alta e era vermelha por fora e amarela por dentro, excelente para todas as utilizações. As sementes ainda conseguia encontrar à venda, mas a batata propriamente dita? Nadinha.

E como na varanda não havia espaço para plantar…

Nesses tempos estava ainda aberto em Cascais o restaurante “O Azeite”, gerido por transmontanos, e que era uma mostra notável de produtos da sua região. As batatas que por ali se comiam vinham todas as semanas lá de cima e eram notáveis. Muitas vezes ali fui de propósito para comer batatas com aquele azeite de exceção (o “conduto” era o que havia nesse dia, tanto podia ser a posta mirandesa como o bacalhau assado).

Desta forma aproveitei uma deslocação a Trás-os-Montes e depois de muito inquirir por Bragança lá me deram uma indicação de produtor cuja qualidade estava garantida e assegurada pelos utilizadores locais. Era em Vilarinho da Castanheira, Concelho de Carrazeda.

Um pouco assustado pela distância (90km a partir de Bragança) decidi-me pela recomendação mais conveniente e “preguiçosa”: esperar pela feira no Mercado de Bragança e ali comprar a algum agricultor que por lá aparecesse.

Por sorte no dia seguinte era dia de feira (sexta feira) pelo que me pus a caminho e fiquei muito contente quando comprei 40 quilos de batatas a um desses agricultores sem banca, mas que por lá apareciam quando tinham excessos das suas produções.

Tudo parecia indicar um bom negócio: o homem era um lavrador que nem tempo tinha tido para se lavar. A saca estava mais suja do que se tivesse servido para transportar carvão. E em redor dele havia vários bragantinos a “enfeirar”.

Meu pai sempre me tinha ensinado que um bom vigarista veste bem e cheira melhor. Ora ali era tudo ao contrário: cheirava a trabalho (até demais) e o aspeto era de um cavador de enxada.

Como se depreende eram bons prognósticos.

O pior foi quando cheguei a casa e comecei a descascar aquelas batatas no meu dia-a-dia culinário: mais de metade estava podre por dentro.

Moral da história: Nem tudo o que luz é ouro. Tal como em Macau deves pedir a um amigo local que te escolha as pérolas, em Trás-os-Montes solicita a um transmontano que te compre as batatas, Não deve haver gozo maior para um lavrador do que ir para a tasca contar como enganou um lisboeta…

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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