Quem entra pela porta principal de um qualquer restaurante na maioria das vezes não tem acesso ao que se passa lá para trás, nas ditas “zonas técnicas”. Nem sempre tem acesso e, acrescentaria eu, que nalguns casos ainda bem.

É conhecida a história da retaguarda do restaurante chinês em Macau, a qual não vou aqui repetir, referindo apenas que é uma anedota que pretende reforçar esta velha questão de “cada macaco dever estar no seu galho”: clientes à mesa, brigada de cozinha na cozinha e copa. E animais vivos, a espernear, devem estar no campo ou nas árvores, incluindo os tais macacos (presentes na anedota).

Pronto, lá conto a anedota já que muito insistem:

Estava um colega meu dos correios de Macau aflito porque os “patrões” o tinham obrigado a fazer uma emissão de selos sobre os animais selvagens típicos de Macau. E – quem conhece Macau – sabe bem que era esta uma missão impossível. Eu ainda o tentei ajudar e depois de consultar biólogos e enciclopédias lá me cheguei à frente com a sugestão de um tipo de macaco e de um pangolim.

O meu amigo só me dizia:

-“Muito obrigado senhor doutor, mas macacos e pangolins só se veem em Macau na Rua da Felicidade.”

Muito instado lá disse que era a rua dos restaurantes …

Evidentemente que tudo isto se passou numa época de obscurantismo ecológico e cultural. Hoje em dia tudo mudou (ou quase tudo).

Voltando à vaca fria, que era a suspeita retaguarda das cozinhas de alguns restaurantes nos tempos mais lá para trás, devo dizer que a moda das “cozinhas abertas” – que estão à vista dos consumidores – em muito melhorou a higiene obrigatória da restauração. Isso e a presença das brigadas de fiscalização alimentar regularmente nos estabelecimentos de comes e bebes.

Era eu um jovem imberbe quando comecei a comer fora sem supervisão dos adultos, com as minhas gentes do futebol-de-salão ou do judo, modalidades em que o Estoril naqueles tempos dava cartas, sobretudo nas camadas mais jovens.

É hoje talvez impensável a quantidade de comida que cada uma destas equipas devorava depois de um jogo importante ou de um campeonato. E como o dinheiro não abundava, os locais escolhidos para estas desmandas eram as então novíssimas “casas de frangos” que começavam a abrir um pouco por todo o lado, e com preços módicos.

Um atleta de 16 ou 17 anos comeria meio frango assado com batatas fritas, pensariam vossemecês? Pois sim, como aperitivo, mas nunca ninguém se ficava por menos de frango e meio. E havia campeões que comiam dois frangos sozinhos, com todos os acompanhamentos, e ainda ficavam a olhar para as travessas dos outros…

E quanto às canecas de cerveja que vinham para a mesa, depois dos campeonatos está claro, seria necessário conhecimentos de álgebra superior para as contar.

Os frangos eram “escalados”, abertos ao meio, e postos na grelha de carvão. Depois de grelhados no ponto salgavam-se e eram acompanhados por travessas grandes de batatas fritas e salada mista.

A retaguarda destas cozinhas era assim apenas o local onde se faziam as saladas e fritavam as batatas. Os frangos eram assados à vista da clientela.

Um dos nossos colegas e amigos, por alcunha “o piranha”, tinha um apetite devorador que mal parecia combinar com a pequena estatura. Por isso era o “piranha” e não o “tubarão”. Um grande atleta.

Comia num instante e depois costumava andar por baixo das mesas para tentar roubar alguma da comida deixada no prato pelos outros. Era um irrequieto.

Um dia, queixando-se amargamente da falta de batatas fritas, levantou-se e irrompeu pela porta da cozinha onde deu pela situação estranha de estarem os funcionários a “recuperarem” do lixo batatas fritas e restos de salada para darem aos foliões (nós) que não paravam de enfardar lá na sala ao lado.

Houve (como podem imaginar) forrobodó dos antigos, com direito a sermão da quaresma digno do grande Padre António Vieira. Mas acompanhado ao bombo, em vez de ser à viola.

A nossa equipa tinha 7 elementos, mais o treinador e o massagista. E éramos todos malta – como dizia o bardo – com o “braço às armas feito…mente às musas dada”, mas sem a parte das musas…

Tudo terminou em bem quando o proprietário disse que naquela noite “as bebidas eram por conta da casa”. Foi o que o salvou.

Moral da história: nunca entres sem seres convidado. Faz de vampiro.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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