Há pessoas que gostam mais de convidar do que de serem convidadas. E eu devo confessar que pertenço a essa equipa.

Não consigo explicar bem os motivos profundos dessa atitude, muito instado diria que talvez seja assim porque passei grande parte da minha vida a ter de convidar clientes por obrigação profissional e também porque tenho hábitos de consumo algo dispendiosos que me fazem estar mais à vontade num restaurante quando pago.

Dito isto, confesso que já nessa altura das obrigações “contratuais” nada me custava mais do que ter de aturar gente que não apreciava apenas porque tinha de ser, sobretudo à mesa.

Uma das minhas referências de vida, David Lopes Ramos, dizia lá do alto da sua enorme sabedoria amável que “comer e beber com qualidade empalidecem quando a companhia esmorece… Mais valem quatro sardinhas em boa companhia do que quatro lagostins entre estranhos”.

Para ilustrar a matéria relato um episódio que se passou comigo num daqueles momentos em que fui obrigado a aceitar um convite para almoçar de um casal (marido e mulher) donos de uma pequena empresa de brindes a quem eu – depois de muito me aborrecerem e só para me largarem a porta – tinha comprado esferográficas e outro material de escritório serigrafado com a nossa marca, para ofertas de Natal.

Ainda por cima escolheram um restaurante perto do escritório onde eu ia duas ou três vezes por semana e onde conheciam bem os meus hábitos, o que só veio acrescentar peso ao meu desconforto.

Segue uma transcrição da conversa inicial, não jurando (pelo tempo que passou) que foi assim tal e qual, mas dando a certeza do tom geral da “coisa”:

– “Aqui basta uma dose que dá bem para os três! Não é verdade Maria?”
– “Tens razão sim senhor! E às vezes até meia dose já chega bem!”
– ” Mas hoje temos aqui o Sr. Manuel! Tem de vir uma dose! O Sr. Manuel bebe vinho?
-” Bebo um ou dois copitos às refeições.”
– “Então é como eu! A Maria não bebe!  Pode ser tinto pois claro?”
-” Oh marido, hoje também posso beber um copito. Um dia não são dias!”
– “Está bem, poupa-se na água! He, He, He! 

Oh Senhor! (para o empregado)  faça o favor de nos trazer uma dose de cozido à portuguesa e meia garrafa de Monte Velho tinto.

E leve daqui o queijinho e o salpicão que são coisas que só nos fazem mal. O cozido já traz chouriço! He, He, He!

O Sr. Manuel come pão à refeição? Nós estamos a cortar, por causa da praiazinha que aí vem…”

 O empregado só olhava para mim, perdido de riso. E foi ele que me salvou, depois de dar dois dedos de conversa ao dono da casa:

-“Sr. Manuel, temos aqui ainda a garrafa de vinho que o senhor não acabou quando cá esteve. Posso trazer?”

Era uma grande mentira, mas à conta dela bebi eu bem. E no final do almoço (lanche seria uma melhor descrição):

– “Sr. Manuel, o patrão pede que lhe dê uma opinião sobre o queijo da serra que chegou ontem. Será do de fábrica?”

E aqui vi eu ocasião soberana para uma pequena vingançazinha:

-“Amigo, pode trazer o queijo e só um prato, aqui os senhores estão de dieta por causa da praiazinha que por aí vem”.

 Vingança mesquinha mas que soube muito bem. Ela e o queijo da serra…

Moral da história: “Na cama e na mesa nem grande dama nem burguesa”. Só malta do povo? Não, só malta boa e com as nossas inclinações. Basta assim. MAS TEM DE SER ASSIM.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

Se queres ler mais crónicas do Bem Comer, clica aqui.