Num domingo de inverno, em 2012, recordo-me bem que tinha tido necessidade de andar rápida e eficientemente logo pela manhã.

Tinha começado por ido fazer as compras semanais assim que abriu o supermercado. Depois, uma visita ao hospital para ver a minha mãe, que já se sentava na cama (com o colete de imobilização) e também já começava a dizer mal do pessoal da clínica, o que era geralmente entendido como sinal muito positivo.

E a seguir a esta visita  obrigatória vinha para casa enfarpelar fato e gravata, pois partia para uma cerimónia no Palácio de Mafra que incluía pela tardinha um concerto para os seis órgãos da basílica – então recentemente restaurados – a que se seguia a Missa Breve de Haydn, com coro de setenta vozes.

E havia ainda que “enfiar” o almoçito no meio destas tarefas todas. No centro de  Mafra, ao domingo, um cidadão via-se aflito para almoçar. Era quase como a baixa de Lisboa depois das 20h, em dia feriado… Estava tudo fechado.
Lá encontrámos uma Churrasqueira que servia transeuntes ao domingo. Casa modesta, modestíssima até.
Era Cozido à Portuguesa o prato do dia sendo que, como depois se viu, a dose era descomunal: vinha em duas travessas, uma para as carnes e enchidos e a outra para os legumes. Tinha bom aspeto e estava muito bom.

E a meio-caminho da refeição ainda vieram “carregar” a travessa das carnes com mais chouriço, farinheira e morcela.

Tomei nota que custava 11euros esta dose abrangente.

Vinho só havia o da casa em duas declinações: um branco da Vermelha e agradável, e um tinto que era  mesmo ali de Mafra e pouco atraente (para o meu gosto).
Beberam-se 4 cafés. Pediram-se 2 whiskeys novos com água ao lado, mas o proprietário só tinha Chivas Regal.

Lá veio para a mesa uma garrafa velhinha, ainda sem “stopper” no gargalo e com o selo a desfazer-se. Com um atestado de idade provecta bem evidente, o que se verificou foi que aquele whisky quando foi engarrafado era mesmo bom.

Tudo somado paguei 27 € para duas pessoas. E ficaria por aqui esta crónica, sem verdadeiramente conter “momentos para esquecer” – pelo contrário – se não fosse um episódio caricato que ainda hoje recordo com sorrisos.

Na Churrascaria em causa existia um aparelho de televisão colocado numa prateleira alta, num canto formado por duas paredes, mas que não funcionava.

Ou melhor, ouvia-se o som mas não se via imagem nenhuma. Mesmo nada… O aparelho, que era ainda daqueles com caixa grande para albergar o cinescópio, não “imaginava” nada!

Só saía som daquela caixa. Parecia uma “voz off” que ia relatando algumas peripécias que se passariam por esse mundo fora. Uma espécie de legendas relatadas de um filme sem que se visse o filme. Era como que o oposto exato  do cinema mudo.

O proprietário, dando-se conta que estavam na sala duas criaturas de fato e gravata, não quis que ficassem com má impressão da Churrascaria!

Arma-se de um secador de cabelo ligado a uma extensão e vai de dar valentemente ar quente nas traseiras da relapsa TV. Mas sem resultado aparente até virmos embora…

 Moral da História: Antes rádio que eu oiça do que televisão que não veja. E para grandes males mais vale o martelo do que o secador.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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