Numa excursão ao Gerês sob pretexto de dar rodagem à minha carta de condução – tirada em fins de Abril de 1974 – conduzia eu ao lado de meu pai e estava a senhora minha mãe no banco de trás do FIAT 124.

Devo dizer que naqueles tempos tanto era a viatura alvo de rodagem como o candidato a condutor recentemente encartado. Com pena constato que nada disto já hoje existe. O que se pode explicar pela evolução tecnológica dos motores, mas já não pela evolução dos condutores…

Depois de muitas horas de viagem (sem autoestrada deviam ser umas sete horas) lá chegámos ao local: Vila do Gerês, Terras do Bouro.

Nesse tempo o Gerês era sobretudo conhecido pelas suas termas, cujas boas águas tratavam várias mazelas, com destaque para desarranjos da figadeira. Os restaurantes (poucos) que por ali havia estavam especializados em ementas de dieta. Grelhados e Cozidos.

Mas como a família do FIAT (ainda) não tinha problemas desses, depressa nos cansámos dos menus que nos apresentavam.

Já muito farto da situação o meu Pai (que sabia cozinhar bem) perguntou à senhora proprietária de uma dessas casas de pasto, a mais típica e afastada do centro da vila, se não poderíamos comer outras coisas.

Aqui cabe recordar que a “rodagem” foi feita em Maio de 1974, e que havia alguma desconfiança a norte sobre a “malta sulista”. Para não dizer pior.

Pensando melhor, estamos em 2019 e esse fenómeno ainda persiste nalguns casos que têm a ver com futebóis.

Mas adiante.

A resposta da senhora proprietária da tasca foi estranha:

 – “Posso fazer-lhe uma cabidela, mas se quiser bacalhau (que fora o nosso pedido inicial) tem de ser o senhor a tratar disso. E olhe que a cabidela ainda demora umas horas porque tenho de ir apanhar e matar a galinha!”

Marcámos a cabidela para o dia seguinte. Mas logo se combinou o bacalhau para dois ou três dias mais tarde.

E esse espetáculo da refeição do bacalhau em terras do Gerês nunca mais o esqueci.

Fomos comprá-lo nós a Braga e foi posto de molho lá na tasca do Gerês.

Logo ali armou-se confusão porque a minha mãe, senhora muito prática, não entendia porque é que – se já estávamos em Braga – não se comia ali o bacalhau em vez de andarmos com trabalhos, deslocações e despesas?

Obviamente que não compreendia a poesia da matéria. Meu pai tinha sido desafiado.

E ia provar que um cascalense de gema, neto da grande Jerónima, cozinheira de El-rei D. Carlos no Palácio de Queluz, não tinha medo de fogões.

No dia aprazado lá estava o impetrante queima-cebolas de Cascais, com mangas arregaçadas, na cozinha do estabelecimento, a tratar do fiel amigo. E comigo a mochileiro, quero dizer, a alcançar os temperos e a tratar de encher o copo de branco do mestre cuca, meio ressequido do calor da cozinha e de alguma ansiedade ligada ao processo criativo.

O bacalhau (guisado) foi feito num tacho enorme. Tinha as melhores batatas criadas neste país, tinha as cebolas da horta do lado, tinha alhos, pimentos e tinha tomate da mesma horta. E rescendia, espalhando-se o perfume por várias metros em redor do estabelecimento.

Agora imaginem os leitores que estão sentados à mesa olhando para a paupérrima truta grelhada sem gordura nem sal, ou para o franciscano bife raspado, barbaramente posto em cima de uma chapa sem qualquer tempero que se visse.

E começava a dar-lhes nas ventas aquele cheirinho do bacalhau guisado com todos os acompanhamentos…

Claro que houve revolução.

Viva o 25 de Abril! Abaixo a dieta! Prá frente caldeirada! Avante tripas à moda do Porto! Para sempre cozido à portuguesa! Longa vida ao sarrabulho e seus acompanhantes!

O tacho não dava para todos comerem. Mas pelo menos todos tiveram direito a provar.

O meu “velho” foi incensado e logo ali o votaram para orago local: São Vitor. A ideia foi de um bracarense habituado ao “São Vitor” lá da terra dele.

O problema foi que o sucesso da coisa deixou a família do FIAT a olhar para o fundo dos pratos… E no dia seguinte lá estávamos em Braga, no restaurante do Sameiro, a comer o bacalhau que na véspera nos tinha escapado. Para grande galhofa da senhora minha mãe…

Moral da História: Quando fizeres bacalhau guisado pensa bem se dará para toda a gente… A caridade começa em casa.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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