Muda o ano, mudará também o tom das crónicas. Passo agora a relatar alguns momentos relacionados com a matéria dos “comes e bebes” que não correram lá muito bem.

Na vida de todos nós, existe sempre um (ou mais) episódios de que não desejamos falar, nem lembrar, nem sequer que seja lembrado por outros. No meu caso foram poucos, se comparados com os momentos inesquecíveis de qualidade. E não falo de coisas muito sérias… Refiro-me àqueles percalços na maioria dos casos a puxar ao ridículo para quem vê, nunca para quem os protagoniza…

Em todos os que relatarei será possível retirar alguma lição, tal e qual como nos contos morais que se contavam às crianças no século passado – e sem que se confunda o título com os Contos Morais, de Eric Rohmer, obra-prima do cineasta, o ciclo de seis filmes realizados assim que saiu do Cahiers du Cinéma, em que foi crítico de cinema.

Comecemos então esta nova aventura.

No período em que vivi “mimado” por tias, avós, antigas empregadas de confiança e, mais tarde, pela minha mulher, quando punha o pé na cozinha nem era tanto para “ajudar”, mas sim para fazer alguns comentários, as mais das vezes escusados e que em nada ajudavam a manter a harmonia familiar.

Ao contrário do meu pai – que pela inépcia gritante da senhora minha mãe à frente dos fogões tinha de se saber orientar na cozinha, sob pena de comer pouco e mal –, eu tive nessa fase da minha vida um ambiente gracioso e ocioso, cheio de coisas boas e muito despreocupado.

Já depois de casado, na divisão das tarefas familiares competia-me enfeirar, “aviar” todos os sábados nos mercados o que deveríamos comer. E depois esperar pelos resultados. Que normalmente eram muito bons.

Filha de agricultores, a minha mulher sabia fazer as refeições desde os 12 anos, e ainda adolescente cabia-lhe ajudar a mãe na preparação dos almoços e dos jantares da quinta, onde nunca eram menos que sete ou oito à mesa diariamente, sem contar com as alturas das vindimas ou da ceifa do milho, onde esse número duplicava facilmente.

Tudo mudou. Fui pelas más voltas da vida apanhado em casa sozinho com um filho adolescente, comendo ambos que nem bestas – salvo seja. E ainda por cima mal-habituados ao bom e ao melhor.

Depois de meses a comer fora e a meter “tostas-mistas” na equação nos dias em que não saía de casa, tanto a algibeira (que era a minha) como a paciência (que era de ambos)  começaram a esgotar-se.

Havia que me dedicar aos fogões, nem que para isso tivéssemos que penar na fase de noviços, eu e o filho, coitado, a quem transformei em cobaia das minhas tristes experiências

A “transição” só foi possível com a ajuda e o conselho de amigos que sabiam desta “poda” da restauração, da minha santa sogra, das tias e primas da província, mas também dos cozinheiros dos restaurantes onde nós mais íamos comer.

Demorei cerca de dois anos a transformar-me de “patego” em iniciado e, ao fim de quase vinte anos ainda sinto que estou nessa categoria, embora a minha mesa já não embarace a maioria dos comensais.

De todas as malfadadas exéquias que passei nessa fase da aprendizagem forçada, sozinho à frente dos bicos e dos fornos, nunca mais me esqueço daquela vez em que a minha mãe estava adoentada e eu decidi fazer-lhe a sobremesa de que a senhora mais gostava: Fatias Douradas.

Nem sei ainda bem como, mas enganei-me nos frascos e em vez de canela meti noz-moscada nas fatias de pão de forma, depois de saídas da frigideira. E, como nunca fui de poupanças, aviei na noz-moscada seriamente, polvilhei o pão tal e qual como se tivesse convulsões, de forma contundente!

Imaginem agora a santa senhora, acamada, com a rabanada quentinha ao pé da boca e o seráfico filho ao lado esperando pelos elogios… Gulosa como ela sempre foi, vai de abocanhar a fatiazinha com força.

Mesmo com febre ainda teve forças para me expulsar de casa aos berros, tendo eu  – atabalhoadamente – descido as escadas de casa dela mais depressa do que as tinha subido, despejando as rabanadas picantes pelos degraus fora…

Ainda hoje tenho de ouvir esta história… E, por isso, para ver se me livro dela, aqui a deixei.

Moral desta história: não é proibido levar para a cozinha uma garrafita de bom vinho branco para fazer companhia ao cozinheiro e matar-lhe a sede das “securas” do forno. Mas antes de beber tenham sempre em cima da mesa todos os ingredientes que vão utilizar já bem organizados pela ordem de entrada em cena. É a mise-en-place.

E, já agora, pôr rótulos com letras GRANDES em todos os frascos de condimentos também ajuda…

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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