Recordei-me ontem, nem sei bem porquê, de Mestre Aquilino e do seu livro admirável sobre D. Frei Bartolomeu dos Mártires. Numa visita episcopal a um dos seus párocos transmontanos, mais virado para as delícias de Baco do que para as da Igreja, e tendo sido informado que era Benevides o seu nome, D. Frei Bartolomeu terá dito: “Benevides não Amigo, antes Benebibes!”

E é por aqui que vamos, com uma história que presenciei lá na Beira Alta.

O meu sogro adorava receber os amigos e os taberneiros (que na altura eram seus clientes) na adega, sendo certo e sabido que logo de seguida era tido e achado em festas semelhantes na casa dos outros.

Na altura havia três convidados que não deixavam os créditos por mãos alheias. Considerados os maiores bebedores da aldeia (havia quem lhes chamasse outra coisa parecida…), nesta altura do ano estavam nas suas “sete quintas” e não perdiam pitada destas provas, apresentando-se sempre sorridentes em casa dos adegueiros.

O pastor era sempre bem-vindo, trazia com ele um queijo velho, considerado o melhor acompanhante para o vinho novo, um pouco na esteira daquele velho ditado das montarias “cavaleiro novo, cavalo velho”.

O compadre taxista também era recebido com sorrisos. A “malta” nunca sabia se seriam necessários os seus serviços, numa emergência, e ele estava disponível a qualquer hora do dia e da noite, tal e qual como se fosse bombeiro.

E para além disso, como a mulher criava porcos, era normal aparecer com várias chouriças na algibeira.

Agora o amigo pedreiro – por acaso o mais borrachão dos três – não era muito bem-vindo onde quer que se arrimasse. Toleravam-no, porque vinha com os outros e nunca se sabia quando era preciso mandar arranjar o telhado, mas a fama que tinha de ser um “vaza cântaros”, aliada ao facto da sua arte de pedreiro ser sempre vendida a bom preço (era careiro e abusava porque na terra não havia outro) não ajudavam muito.

Desta forma os outros dois compadres começaram a ver a sua presença ligeiramente enlameada por culpa do pedreiro, e logo se reuniram para tratar do assunto.

-“Oh Amigo Zé, vossemecê tem de levar alguma coisa quando for connosco para as adegas. Parece mal aparecer assim de mãos vazias.”

-“Isso mesmo! Bem dito compadre! O Zé devia aparecer com qualquer coisa. Um dia destes já tenho vergonha de me estar sempre a pendurar”.

-“Mas trazer o quê? Vou levar um garrafão de vinho? Atão vou levar uma botija com água para a nascente? Homessa!”

-“Não digo isso compadre, mas qualquer coisa que se coma. O Tio Correia leva sempre um queijo, eu roubo à Maria umas chouricitas para levar também. E você não julgue que é fácil! Que ela não sabe ler nem contar, mas quanto às chouriças dá sempre por falta delas!”

-“Chiça para vossemecês! Eu não tenho ovelhas nem mato porcos! Sou mestre-de-obras! Querem que leve um tijolo burro?”

-“ A bem dizer o compadre é tanto mestre-de-obras como eu sou condutor da camioneta da carreira. Eu ando num táxi e vossemecê é mas é pedreiro, mas não se amofine e vá pensando nisso”.

O pedreiro lá decidiu, depois de muito instado, começar a aparecer com “qualquer coisita”.

Como a próxima “festa” era em casa de meu sogro, o que por lá se passou faz parte dos “estórias” com que ele mais tarde nos entretinha.

Seriam nove ou dez amigos, contando com os três compadres e com o dono da casa.

A minha sogra tinha a mesa posta na adega com duas travessas de bacalhau cru desfiado e temperado, mais duas de febras e iscas de porcas assadas, farinheiras tostadas na sertã e quatro pães de kg do Sabugueiro. O lugar de honra, ao meio da mesma mesa, era reservado para o queijo do Tio Correia, um “monumento” que ele já tinha avisado que traria. Havia ainda uma tábua e uma assadeira de barro onde o taxista podia dispor as chouriças “desviadas” à sua legítima.

Chegada a “trupe” dos compadres apresenta-se o Zé pedreiro e mostra o que levava para a festa: uma lata de atum.

-“Desculpem, mas como vim de bicicleta foi o que coube na algibeira”

Todos olharam e não pensaram nada bem. Uma latita para 9?

Comeu-se e bebeu-se. Elogiou-se o vinho, branco e tinto. Elogiou-se o queijo, com mais de dois quilos e que estava de lamber os beiços. Deram-se vivas às chouriças, ali mesmo assadas em bagaço do bom.

No final o meu sogro deu 2 garrafas, uma de branco e outra de tinto, a cada conviva.

Quando chegou a altura do Zé pediu licença foi à cozinha buscar uma garrafita de cerveja, lavou-a à frente de todos e disse:

-“ Amigo Zé, quer do branco ou do tinto? Como vai de bicicleta não quero estorvá-lo com as garrafas maiores…Esta cabe-lhe no bolso”

Moral da história: Quando fores para a festa na adega leva o carro. Ou a carroça…

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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