“O diabo está nos detalhes”.

Esta frase – muitas vezes atribuída ao grande arquiteto Mies Van der Rohe – significará que, estando desenvolvida uma ideia geral, a concretização da mesma passa pelo acerto dos pormenores. E aqui, nos pormenores dos projetos da grande arquitetura, é que muitas vezes a “porca torce o rabo”.

O momento para esquecer que aqui evoco tem a ver com a “caça”. E para início da conversa convém dizer que eu nunca cacei (a não ser sentado à mesa).

Mas algumas vezes fiz companhia a grupos de monteiros modernos, ajudando a preparar as refeições das jornadas e alinhando nas sessões de jogo de cartas que se seguiam e que seriam quase tão importantes como a caça propriamente dita.

Naquela época um caçador que se prezava era seduzido para a atividade por algum familiar ou amigo e, quando havia mais dinheiro disponível, a conversa envolvia logo a escolha da arma. Começava-se com sonhos de grandeza que envolviam uma Holland & Holland ou uma Purdey, de canos alinhados ou sobrepostos, e depois baixava-se o nível para a mais proletária  Beretta ou Benelli.

Eu, como referi, teria treinado em miúdo o arco e flecha, ao mesmo tempo da fisga  e da pedrada simples, passando pelo laço de visco… E só isso.

De espingardas só me lembro de possuir uma “pressão de ar” da marca Flavia (feita na antiga Checoslováquia) com a qual nos entretínhamos em torneios de tiro ao alvo. Mas que só assustaria pardais. Se matasse algum seria mesmo de susto.

Naquela ocasião – num monte perto de Estremoz – os amigos caçadores tinham trazido uma braçada de coelhos bravos. Enquanto tratavam de outros assuntos era mister preparar o almoço tardio, que se comeria lá para as quatro da tarde.

Fiquei sozinho a olhar para os bichos, nunca me passando pela cabeça – o que traduz uma certa simplicidade de pensamento – que quando me ofereci para “cozinheiro” da banda teria de aparelhar as vitualhas antes de as pôr ao lume. Isto é, esfolar e limpar aquilo tudo.

Temperos eu tinha trazido: sal e pimenta preta, azeite, salsa, colorau, cebola, alho e louro. Vinho branco e tinto havia com fartura. A batata estava já sem pele e em água fria.

O problema era transformar aqueles “casacos de peles” em algo mais parecido com o que se caçava nas prateleiras do supermercado.

Bem olhei para todos os lados, à espera de ajuda, mas os caseiros tinham-me deixado sozinho, confiantes nas credenciais apresentadas na noite passada por mim próprio, porventura já meio embalado com o conteúdo da garrafita de whisky velho.

Levou tempo, e estraguei mais do que desejo lembrar-me. Mas lá consegui pôr o tacho ao lume quase hora e meia depois, com 5 coelhos “teóricos”. Sendo que, na prática, aquilo que foi para dentro do tacho, depois do enorme desperdício, não seria mais do que a carne de metade da caçada…

Para além do sangue dos bichos não juro que não tenha lá ido parar também algum do sangue dos meus dedos, dos muitos cortes que fiz em prol da honra do queima-cebolas.

Entretanto chegaram os caçadores. Perante o tacho rescendente comeram e beberam até fartar. E gostaram. Aliás teriam gostado de tudo com aquela fome.

Um mais avisado ainda questionou que “lhe parecia haver pouca carne no tacho”…

Ao que lhe retorqui com grande firmeza “se ele não sabia que os guisados lentos, bem apurados, consomem de carne quase meio por meio? Sobretudo se é carne fresca, acabada de caçar?”

E com esta mentira me safei. Também porque o consumo dos digestivos que tinham escapado à incursão noturna ajudou ao convencimento da trupe.

Moral da história: Antes de te armares em cozinheiro de campo vê bem se levas ajudante de cozinha à altura do acontecimento. E não te esqueças de uma malita com pensos rápidos, água oxigenada e betadine.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

Se queres ler mais crónicas do Bem Comer, clica aqui.