Depois de uma história de caça aqui vem outra de pesca. Mas, para variar, quem fez a “figura de urso” foi meu pai. Eu só acompanhei a demanda e ajudei a compor grande parte da falsidade com que nos apresentámos em casa da família, cinco ou seis horas mais tarde da ocorrência do infausto acontecimento.

Quando tinha dez ou onze anos costumava ir à pesca com o meu tio e com o meu pai, num barco a remos pequeno – que ali na zona do Estoril se designa por “chata”. Normalmente íamos com os banheiros antigos da praia, diretos aos pesqueiros escondidos.

Íamos de noite para regressar de madrugada.

Esses pesqueiros encontravam-se fazendo o alinhamento entre dois pontos visíveis da costa a cerca de um quilómetro e meio da praia.

As localizações faziam parte da tradição ali da zona. E passavam de pais para filhos, em segredo, porque havia já o cuidado de ir poupando na exploração dos recursos do mar.

Um dos mais produtivos da costa do Estoril era conhecido por “Janela Aberta”.

Naquela noite o nosso guia banheiro não estava disponível para nos acompanhar.

Tinha apanhado na véspera uma “carraspana” das antigas, certificada com papel passado pela autoridade, que o apanhou na estrada completamente estragado em cima da mota, ou com a mota em cima dele, já não me recordo bem.

E como o meu tio acabava as férias, e iria trabalhar para o banco em Lisboa na semana seguinte, não havia forma de se combinar alguma outra data mais adequada.

O meu pai, que ali tinha pescado vezes sem conta, rapidamente assumiu o controlo das operações, ciente que não teria dificuldade nenhuma em dar com o “pesqueiro”.

A noite estava mais para o escuro do que para o claro. Quarto minguante. Mas como os antigos pescadores diziam que nas “marés mortas” ou “nas luas de quarto” a pesca era melhor, lá partimos confiantes.

O problema foi dar com o tal pesqueiro. Os gatos à noite são todos pardos. E com a insuficiente luminosidade já teríamos alguma dificuldade em ver o nariz uns dos outros dentro da chata, quanto mais lobrigar os tais pontos definidores do bom local para iscarmos e deitarmos as linhas ao mar.

Teimoso (dizem que herdei dele essa caraterística) meu pai depois de muito exercício aos remos decidiu que “ali era o sítio”.

Sítio onde estivemos quase três horas sem que nada picasse. Nem botas da tropa…

O que ouvi aos dois irmãos nessa ocasião daria para encher um dicionário de calão.

Já muito farto de ali estar, o meu tio Joaquim sugeriu que havia um outro local mais propício para pescar e onde era garantido haver sempre peixe.

Eu acho que naquela situação iríamos para qualquer lado, nem que fosse com um camaroeiro para o reservatório das trutas dos viveiros de Manteigas.

Demos de proa ao barco e vai de remar na direção da Praia dos Pescadores (antiga Praia da Ribeira).

Estávamos quase em cima das cinco da manhã, altura de chegarem àquela praia os barcos de pesca que tinham ido para o Cabo Raso ou para a Roca, vindo entregar na lota de Cascais o pescado dessa noite.

E era com isso que o meu tio contava. Muitos dos elementos das “companhas” recebiam em peixe ou marisco, o qual iam vender – naqueles tempos – mesmo ali na areia.

Encostámos a chata a alguns desses barcos e ali mesmo se fez a trasfega de material, pago à vista, está claro.

Robalos, corvinas e cavalas. Quatro boas santolas e uma dúzia de navalheiras que foram oferecidas para “arredondar” o negócio.

A minha mãe e a minha tia ainda foram bem enganadas ao chegarmos a casa.

Agora, como é que se enganaria o velho João Banheiro, dono da chata, e com mais anos de mar como meu pai teria de idade, na altura de devolver o barco ao proprietário?

O homem ainda por cima tinha “covos” naquelas águas e ao ver as santolas e as navalheiras a bordo, dentro dos baldes, sabendo que tínhamos levado para o mar apenas linha de pesca e anzóis, ficou logo desconfiado.

Lá lhe tivemos de lhe comprar o silêncio com a promessa de uma garrafita de whisky, a qual foi religiosamente entregue no dia seguinte. Pois pudera! Em caso contrário acabava-se o empréstimo do barco.

Moral da história: Quando não sabes, não inventes. Ou melhor, sai com o barco na lua cheia e leva sempre uns binóculos na mochila. Mas sobretudo nunca te esqueças do guia.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de Priscilla Ballarin

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