A “maridagem” (união ou combinação em harmonia) que suscito nesta semana não tem só a ver com vinho.

Também para alimentos que vão ser consumidos em sequência – por exemplo no âmbito de um jantar de festa, em nossa casa – coloca-se com frequência a questão da harmonização dos sabores.

Vamos admitir que se trata de um convite a família mais ou menos chegada ou a bons amigos, pois não temos em Portugal tradições que envolvam franquear a nossa mesa a outro tipo de convidados.

O que vamos pôr nos pratos depende de muita coisa. Do número de convivas, dos “maravedis” disponíveis, da idade da “seita”, da época do ano e até do simbolismo da reunião (aniversário, Natal, mero encontro para troca de impressões, ver um jogo de futebol importante, etc…).

Numa noite de futebol europeu é aceite a opção pelo “já feito” ou “pronto a fazer”.

Aperitivos em caixas, “pizzas” entregues à porta ou congeladas e aquecidas no forno, muitas latas de cerveja.

Tenham apenas cuidado com as pressas, não vão trazer do hipermercado alguma embalagem de “doguitos” da “Purina” em vez dos “Pringles” ou “Lays”…Com os nervos marchava tudo e até eram capazes de se habituarem.

Mas o caso que aqui queremos sublinhar vai um pouco além disso. Imagine-se um casal jovem a receber amigos chegados em sua casa ou imagine-se (caso ainda mais bicudo) que os convidados são os pais e sogros.

Seis pessoas à mesa. Algum respeito, ou pelo menos a vontade de mostrar que sabemos receber.

No planeamento de uma refeição destas há que pensar em pelo menos três ofertas:

– Uma entrada

– Um prato principal

– Uma sobremesa.

O primeiro conselho é nunca irem além do razoável. Os anglo-saxónicos referem-se a esse defeito como algo que ficou OTT (“over the top”), que transbordou em relação ao efeito pretendido.

O segundo – que se liga ao primeiro – vai no sentido de não multiplicarem os vinhos em apreciação. Dois vinhos são uma escolha ótima, três serão uma escolha boazinha, mais de três será um convite ao distúrbio palatal (e a outras coisas mais complicadas).

O último conselho tem a ver com nunca ignorarem a estação do ano e o tempo que faz lá fora…

Ao planearmos esta refeição pensemos então em Novembro (Outono) e comecemos por escolher os vinhos que entram na arena.

Recebam os convidados com um bom espumante bruto nacional. São sempre boas escolhas as marcas Vértice Millésimé, Murganheira Vintage, Luis Pato, Aliança Vintage, Quinta da Murta, entre outras. Para acompanhar experimentem umas amêndoas torradas em casa. Ponham no forno aquecido a 150º as amêndoas sem pele e deixem alourar 5 minutos de cada lado. Simples!

Para entrada evitem o marisco. Nem que seja a bondosa ameijoa, pois não querem sujar as mãos nem a toalha. Deixem as “lambuzices” para o quintal e para o Verão.

Um “patê de foie gras de canard” de boa marca acompanha bem com o espumante bruto. Sirvam com torradas de pão de centeio (aproveitem o forno já aquecido). Claro que se a bolsa der para comprarem o “foie gras entier” de ganso e trufado, com a referência “Label Rouge” (rótulo de qualidade) e proveniência IGP Sud-Ouest, das marcas “Fauchon” ou “Lafitte”, melhor…

Têm o forno ocupado – adeus cabrito, adeus bacalhau à Gomes de Sá – comeram “foie gras”, o que deixou o aparelho gustativo em alguma saturação de qualidade. Como seguir com a “dança” de forma a elevar o patamar?

Mas primeiro pensemos no vinho. Tinto e bom, está claro! E de mais ou menos 20 euros por garrafa, para evitar o tal fenómeno de “OTT” mas sem dar a noção que contamos os centavos…

Três hipóteses, a crescer dos 20€ até aos 27€: Duas Quintas Reserva de 2012 (um grande Douro), Sidónio de Sousa Garrafeira de 2009 (um Bairrada superlativo), Quinta da Pellada Dão 2011 (Magnífico).

Para dar batalha a qualquer destes vinhos há várias opções, sobretudo tendo em atenção a portugalidade da audiência.

De notar que se deseja o chamado “Prato de um Tacho Só”, o qual alivia o (a) cozinheiro(a) e dona(o) de casa em vários sentidos.

Se for um almoço de amigos, os estômagos aguentam bem um Arroz de Línguas de Bacalhau, ou um Cozido de Grão e Enchidos, cuja ruralidade e sabores intensos dão o contraponto devido ao aperitivo francês.

Caso seja um jantar ou existam estômagos mais delicados à mesa, experimentem umas bochechas de porco alentejanas estufadas no tacho, com vinho moscatel e bom azeite. Acompanhem com arroz branco bem solto.

Abra-se o vinho tinto duas ou três horas antes. Decante-se e sirva-se a não mais que 16º.

Com o mesmo tinto (prevejam duas garrafas de espumante e três de tinto para 6 pessoas) terminem a refeição com um queijo de Azeitão (ponham 2 na mesa) e uma taça de Mousse de Maracujá, que podem comprar já feita mas dizerem que foi obra das vossas delicadas mãozinhas…

Manuel Luar