Parece que chegar aos “100” de qualquer coisa merece celebração especial.

Tenho dúvidas sérias sobre a “celebração”, no caso desta saudação especial ser para os 100 anos de vida de qualquer cidadão (ou cidadã), pois salvo honrosas exceções essas festas são mais para os amigos e parentes que convocam a TV do que para quem faz mesmo o século de vida, a sentir-se quase como atração circense no meio daquelas exéquias.

Mas admito que uma “crónica 100” deve ser evocada.

Comecemos pelos locais de culto e de pecado da gula centenários. Não há muitos.

Em Portugal, com mais de 100 anos garantidos em escritório de advogados, temos o Restaurante “Tavares Rico”, que abriu portas em 1784. E na mesma cidade existe com cerca de 200 anos o proletário restaurante “João do Grão”.

No Porto segue trabalhando a antiga casa de pasto “Flor dos Congregados”, na Baixa, com mais de 160 anos de vida. A conhecida “Confeitaria Cunha” (que tem restaurante) já atingiu os 100 anos. O tradicional “Escondidinho” anda perto (1931) mas ainda não os fez.

Outros haverá por esse país fora. Recordo-me do Águias d’Ouro de Estremoz, aberto ao público em 1909 como café, tendo apenas sido promovido a Restaurante nos anos sessenta do século passado.

Cafés centenários há vários – o Martinho da Arcada e a Brasileira do Chiado, em Lisboa; o Piolho do Porto, o Vianna e a Brasileira de Braga, o Paraíso em Tomar; o Café Sport em Viana do Castelo (já conhecido em 1879), etc… – mas aqui falamos de restaurantes.

Parecia assim apropriado fazer uma crítica gastronómica de algum dos restaurantes centenários nesta crónica número 100.

Só que do João do Grão já por aqui falei, à Flor dos Congregados nunca fui (ainda) e sobre o Tavares Rico e a (atual) Confeitaria Cunha não tenho, infelizmente, muito bem a dizer.

E não quero, nesta crónica festiva, passar por velho rezingão à moda dos “Statler and Waldorf” dos Marretas, empoleirados no camarote, sempre a dizer mal do espetáculo.

Resolvo o assunto relatando o episódio da abertura e prova (isto é, bebeu-se toda) de uma garrafa de Porto com mais de 100 anos, da Ferreirinha, que me foi oferecida pelo saudoso amigo Nené Novais, cujo bisavô tinha sido guarda-livros da famosa casa do Douro que foi entretanto comprada pela Sogrape em 1987.

Estas garrafas faziam parte das “broas” de Natal que a A. A. Ferreira oferecia aos colaboradores mais chegados, nessa época em que “subsídio de Natal” era uma coisa nórdica…

Se ainda a tivesse bebíamo-la na data da publicação desta crónica, a 4 de Agosto de 2017. Mas como já só existe na minha memória o que posso fazer é compartilhar convosco esse momento.

Foi à mesa do Beira Mar, em Cascais, que a abrimos, estando connosco um dos mais conceituados provadores de vinho do mundo, o Sr. Ralph Weinman.

O rótulo já mal se lia e a rolha estava “soldada”. Com o auxílio da tenaz a quente lá se resolveu o problema.

Ao decantar o vinho este parecia castanho, opaco. Mas mal recebeu o fluxo de oxigénio abriu na cor e sobretudo no aroma, que passou do iodado puro para uns laivos de baunilha.

Ficou depois âmbar escuro, concentrado. Na boca sabia a frutos secos tostados no forno e especiarias, um tudo de nada de chocolate preto. Aveludado, quase com textura de xarope, mas muito equilibrado, com a doçura compensada pela acidez.

O amigo Ralph chamou-lhe um “super-tawny”e explicou: “são hoje vinhos de moda para os muito ricos. Servem sobretudo para melhorar os balanços e as contas de exploração das grandes casas do Douro, que sabem que haverá sempre gente neste mundo capaz de gastar 1000 euros ou 2000 euros por garrafa para poder dizer que bebeu um vinho com 100 anos, ou mais”.

Mas depois de isto tudo também foi acrescentando: “quando bem preservados e bem servidos permitem encontrar sabores, bouquets e texturas de antigamente, a que apenas alguns privilegiados hoje têm acesso”.

Foi bebido este porto velho logo no início da refeição, com receio de que os sabores dos pratos nos alterassem o palato. E obviamente sem acompanhamento. Um autêntico virtuoso a “solo”.

Manuel Luar