Tem Portugal a sorte de possuir um larguíssimo ponto de encontro com o Mar, ao longo dos quase 900 Km de costa que se estendem de Vila Nova de Cerveira a Vila Real de Santo António.

Nessas localidades sempre existiu azáfama de mareantes, pescadores que em todo o tipo de embarcações se dedicavam às artes da pesca, desde a singela pesca à linha ou à toneira até à antiga e honrada “arte xávega” própria das traineiras de arrasto e onde as juntas de bois contribuíam para o êxito da faina marítima, puxando as redes para a praia.

A sobre-exploração das reservas marítimas teve por consequência a cada vez menor importância desta faina artesanal de pesca “à vista da costa” , tão importante para apoiar as economias caseiras da gente boa – de Olhão à Gafanha da Nazaré e por aí acima, até Viana.

Para o gastrónomo empedernido esta ausência de barcos no mar tem consequências.

Logo em primeiro lugar a raridade do peixe da nossa costa (por ser cada vez menos e por não haver quem o apanhe) e em seguida o preço inaudito a que o pouco que há chega aos nossos pratos.

Quando várias espécies de peixes das nossas águas se apresentam no seu melhor (o Sargo, o Linguado Rosa, o Goraz e o Pargo legítimo) faz pena termos de nos contentar com o Robalo ou com a Dourada de aviário que não nos matam as saudades dos seus parentes selvagens nem com eles permitem qualquer tipo de comparação.

Um amigo meu francês – que tive ocasião de receber em Portugal – elogiava tremendamente a Perca e o Rodovalho da sua terra . Perante um Pregado português estalado no forno (no Beira Mar) ficou extasiado…

Há algum tempo também convidei para almoçar o Diretor Técnico da J.Ecshedé (Impressores de segurança holandeses). Começou por me dizer que não gostava de Peixe. Mesmo assim arrisquei e ofereci-lhe dois singelos salmonetes “em capote” isto é simplesmente grelhados sem escamar. Ao ensinar-lhe como o fígado se devia barrar nas tostas quentes feitas no momento comecei a ver que lhe despontava um rasgo de interesse… Quando pela primeira vez meteu o dente naquela carne do outro mundo soube que o tinha conquistado por completo.

E poderia estar aqui a repetir estas histórias sem fim…

Há também contos engraçados, como o daquele “Grande Senhor”, Capitão da Indústria Portuguesa que chegou comigo ao Porto de Santa Maria e – perante uma Dourada de Mar magnífica – rematou a refeição dizendo:

-“O gosto até não era mau , mas tinha achado o peixe um pouco rijo!!”

Claro que estava habituado a comer dourada de aviário, mole como as papas…

Devia ser da “raça” de um presidente de um dos três grandes do futebol (do passado!) que bebeu quase até ao fim uma garrafa de Barca Velha completamente passada, dizendo para todos os que o acompanhavam que aquele vinho (que ele conhecia muito bem) era mesmo assim, com aquele gosto… Como é que eu sei isto? Porque estava no mesmo local e provei a garrafa depois de saírem os “impetrantes”.

Espanhóis e Japoneses terão tomado conta do Mar português? Para apanhar qualquer coisa é preciso ir cada vez mais longe, negociando as quotas com os Países da Africa do Norte? E chega tudo aqui já refrigerado?

Ou será que ainda pescamos mas tudo o que se apanha é para exportação? Disseram-me que as douradas , os linguados e robalos maiores chegam ainda vivos a Itália e aos USA se expedidos de Portugal durante a noite… E pagos ao preço do ouro.

Não interessa muito se o resultado final – a escassez do produto nas mesas dos portugueses – for igual.

De todas as formas deixo aqui uma certa nostalgia por um tempo de fartura no mar e na mesa, um tempo onde os pobres comiam peixe. Ainda se lembram?

“Mar
Nunca conseguiu viver longe do mar.
A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.
Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meio cegos a vastidão incendiada do oceano – e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.
Aprendera, também, que o mar, aquele mar – tarde ou cedo – só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.”

O Anjo Mudo
Al Berto

Nota: O Pregado estalado no forno à moda do “Beira Mar” é primeiro “apertado” numa sertã em azeite e alho, e vai depois para o forno bem quente de forma a que a pele fique estaladiça, obviamente que protegido por pão ralado e farinha. Esta preparação deve ser reservada para peixes de bom tamanho, que permitam seguidamente retirar os lombos no prato. Para os especialistas, a cabeça. E é um manjar dos deuses.

Manuel Luar