Em vez de ficar em Viana (onde acampo dentro de dias para tomar conta de uma exposição internacional)  fui dar um passeio a Santa Marta,  investigando um “boato” que me chegara cá abaixo a Lisboa, sobre alguma perda de qualidade de uma Casa que foi Ex-Libris da cozinha minhota durante muitos anos: o Camelo.

Lembro-me das boas referências  (até excelentes!) às suas duas “encarnações” que conheci, a do Portuzelo e a da Praia da Aguda (ou por ali perto).

Desta vez de facto tenho de reconhecer alguma desilusão neste reencontro com tal “altar” da alta cozinha minhota… Explico porquê.

Pedi Rojões, prato emblemático da gastronomia local, com que sempre me tinha dado por satisfeito ali mesmo, no seu Solar pátrio.

Não os consegui comer. As papas de sarrabulho eram feitas com arroz agulha em vez do canónico Carolino. Para além disso o arroz vinha por abrir, a deixar-se trincar. A carne de porco não tinha sido alourada e era de má qualidade… Castanhas não havia (nesta época!).

Enfim, bem piores do que os que se comiam em Lisboa no já saudoso “Verde Mar”.

Saudoso porque infelizmente encerrou e porque era casa de bom preço e de boa vianda.

Mas continuando com a crónica da visita ao Camelo: explicado o assunto à gentil e esforçada empregada de sala, lá pedi a Vitela assada. Esta sim, embora sabendo um tudo nada ao requentado (devia ter sido assada de manhã cedo) revelou-se excelente de textura, acompanhada do arroz de forno, grelos salteados de nabo, batata assada e a desfazer-se na boca como só me lembrava da “bitelinha da costela mendinha” do D. Manuel da Foz do Porto, também ele encerrado .

Chiça que isto hoje parece um funeral de restaurantes!

Paguei pouco, 23 euros, pela dita Vitela (uma dose) , por umas entradas de fritinhos (bolinhos de bacalhau mauzinhos, rissóis assim, assim, e croquetes idem, mas tudo já frio… e cheguei ao bater das 13h…)  mais uma garrafa de verde tinto e 2 cafés…

Claro que a Vitela também tinha meias doses, o que daria uma redução de cerca de 8 euros na conta. Mas acho que preferia ter pago mais e poder chegar aqui à capital do Império e desdizer fortemente os tais “boatos” que me chegaram…

Mas não o posso fazer! Porquê? Falta de clientes? Comprovei que sendo dia de semana não estava muita gente, e os habituais pediam carnes grelhadas…

Fico à espera de nova oportunidade para fazer um  exame de segunda época à velha locanda manducal.

Esta coisa dos maus rojões parece sina minha e do próprio Minho… Já em Braga fomos uma vez mal tratados, no “Inácio”, ao redor do mesmíssimo prato…

Cá para mim a explicação é simples: Dá muito trabalho e leva tempo a fazer (e então se acompanhados com as Papas de Sarrabulho, como soía, pior…). Mas tirem-nos da carta, expliquem que se trata de carne de porco frita à portuguesa ou coisa parecida, e deixem de lhes chamar Rojões à Moda do Minho…
Salva-se – com todas as honras! – o restaurante A  Carvalheira, à saída de Ponte de Lima, perto do golf.

Aquilo é um altar de cabrito assado e de sarrabulho completo, com os seus rojões… Venham cedo e tragam companhia. Porque uma dose alimenta bem três foliões. E com qualidade! Que é o mais importante.

Receita tradicional dos Rojões à moda do Minho (4 pessoas)

800 g de perna de porco ou Cachaço,  sem pele, mas com gordura ;
3,5 dl de vinho verde branco ;
3 colheres de sopa de banha ;
4 dentes de alho ;
2 folhas de louro ;
1 colher de sobremesa de colorau ;
sal e pimenta ;
20 castanhas assadas ;
350 g de belouras ou bolachos;
350 g de tripa enfarinhada ;
100 g de fígado de porco ;
100 g sangue cozido

Confecção: Corta-se a carne de porco em cubos com cerca de 10 cm de lado, que se põem a marinar durante duas horas com o vinho, os dentes de alho esmagados, sal, pimenta e o louro.
Leva-se ao lume (de preferência num tacho de ferro) e deixa-se cozer em lume forte até o vinho se evaporar. Junta-se então a banha e, em lume brando, deixam-se cozer os rojões até alourarem bem. Nessa altura junta-se ao molho o colorau dissolvido num pouco de vinho verde.

Retira-se então um pouco da gordura de cozer os rojões para um sertã e fritam-se, a pouco e pouco, a tripa enfarinhada cortada aos bocados de 3 cm a 5 cm, as belouras cortadas em rodelas com 0,5 cm de espessura e o fígado e o sangue cortados em fatias.
À medida que estes ingredientes se vão fritando, juntam-se aos rojões, para manter tudo quente. Juntam-se também as castanhas assadas, depois de descascadas.

Servem-se numa travessa com batatinhas louras e enfeitados com rodelas de limão e raminhos de salsa.

Fonte: Maria de Lourdes Modesto; Cozinha Tradicional Portuguesa

Manuel Luar