Num espaço mais dedicado aos comes e bebes, falar de Economia pode ser suficiente para que toda a gente habitual leitora destas linhas passe adiante… Não o façam ainda sff, porque as duas coisas estão ligadas… E muito. 

Sem uns dinheiros para gastar lá se vão comes e bebes, seja em casa ou seja lá fora. E quando todos os que, como nós,  ainda alimentam a maioria dos negócios da restauração começarem a olhar para as carteiras antes de entrar, mal estaremos…Ou mal estamos já…

Falando com os proprietários dos Restaurantes observam-se as tendências do consumo desde o início da crise: digestivos praticamente deixaram de se vender (em média, está claro, estamos a falar de tendências!) e quanto aos vinhos, a “moda” agora é pedir licença para trazer de casa  a garrafita, ou então pedir…água.

Naquelas casas que (e muito bem!) permitem fumos à mesa em divisão separada, ainda é possível ver as criaturas a namorar o havano com um whisky…Mas em vez de pedirem os Glenmorangies, Lagavullins ou MacCallans que antigamente faziam a alegria das caixas registadoras, pedem agora um “whisky novo com muito gelo e água”…

Tenho algumas dezenas de contas de almoços e jantares  arquivadas, como podem adivinhar.  Com algumas na mão, proponho-vos  o exercício que consiste em saber quanto valem os “álcoois” na última linha do recibo.

Numa conta típica de um bom restaurante em Évora, falando de uma refeição para 3 pessoas e sem meter peixe ao Kg ,  em 157 euros de conta, os vinhos, digestivos e aperitivos (que foram cerveja)  contaram com 87 euros. Mais de 50%. 55,4% para ser exato.

Noutra conta de um outro restaurante, desta vez em Cascais,  de 192,70 euros, também para 3 pessoas, mas com um Robalo ao Sal, os mesmos “líquidos” representaram  70 euros , portanto 36%.

E para terminar, uma refeição de província, em Vila Real de  Trás-os-Montes. Aqui duas pessoas almoçaram por 61 euros, com vinhos e similares responsáveis por 16,60 euros, 27%,.

Há obviamente diferenças nos preços: Um “Herdade das Servas Touriga” pode custar 30 euros num local e 25 euros noutro. Um whisky Lagavullin custa tanto como 15 euros nalguns locais lisboetas, mas já  o paguei também a  12 euros no Porto. Um whisky velho (Black Label) pode custar num sítio 12 euros, noutro apenas 7 euros…

Se estamos em Vila Real e pedimos uma aguardente de vinho verde bagaceira, sem rótulo, pode custar 1 euro  (e que maravilha!) . Mas se a pedirmos em Lisboa e nos trouxerem a Alvarinho do Palácio da Brejoeira (também ela espetacular), pagaremos 12 vezes mais… Não é a mesma coisa! Dirão e bem. Pois sim, mas quanto à satisfação do paladar do Cliente, naquele momento, não se afastam tanto assim como a diferença de preços o poderia indicar.

Quando os vinhos são “topo de gama” a influência dos mesmos nas contas é desmesurada… Com vinhos a passarem alegremente a barreira dos 100 euros por garrafa na carta (alguns do Douro, o Pera Manca …) apenas “empresários de futebol” ou outros riquinhos de ocasião se podem dar ao luxo de os mandar abrir quando estão sentadas à mesa 6 ou 7 pessoas…

Mesmo quando nos decidimos por coisas mais em conta mas também elas muito boas – os Pelladas de Álvaro de Castro (50 euros?) , Murganheira Vintage (45 euros);  Quinta do Crasto Vinhas Velhas (40 euros ou mais) , ou mesmo um Branco Redoma (cerca de 30 euros) – os efeitos na “soma” são imediatos e visíveis…

Há que partir para vinhos menos elaborados, mais novos , embora a idade seja cada vez menos uma variável influenciadora do preço.

Alguns exemplos de preços nos restaurantes: Quinta da Mata Fidalga verde branco 2014 a 12 euros; Branco do Soutinho a 6 euros (muito difícil de encontrar a Sul); Lisa (Branco de Palmela) 2015 a 12 euros;  Alvarinho Soalheiro 2015 a 18 euros; Álvaro de Castro Reserva Tinto de 2004 a 27,5 euros; Herdade de S. Miguel Tinto de 2008 a 13 euros; Monte Mayor de 2007 a 14 euros… e por aí.

Faço notar que o fator multiplicador do preço da garrafa entre o armazém do produtor e o restaurante é tanto maior quanto mais barato é o vinho. Um vinho que custa 3 euros no retalho pode ver o preço ser multiplicado por 4 à mesa do restaurante. Se for um vinho que custe 30 euros na loja, é provável que à mesa seja vendido por 65 euros.

Com estes cuidados novos e redobrados, o volume das contas dos restaurantes desce.  Há gente – e tenho que dizer que neles me incluo – que preferem beber o bom e o muito bom cada vez mais em casa (sua ou de amigos) do que gastarem “garrafões” de euros a pagar essas mesmas garrafitas nalgum bom restaurante…

Obviamente que quem sofre com tudo isto é o proprietário do restaurante. Mas também o Cliente que se priva de “casar” como bem entende a refeição com o vinho.

Daí eu ser um dos apologistas desta nova tendência que consiste em levar bons vinhos para o Restaurante. Pagando o serviço de vinhos, está claro! Aquilo a que se convencionou chamar em gíria “a rolha”.

Agora, não me digam que esse serviço vale 20 euros por garrafa como já li!!  Assim lá vão outra vez matar a galinha!

Entre os 5 e os 10 euros (consoante a categoria do restaurante)  e já gozam (eles e nós)…

Manuel Luar