Sangria desatada (branca ou tinta, venha ela!)

A antecipação de um copo ao pôr-do-sol em boa companhia (pode ser o cão, mas de preferência seria outra coisa) é sempre sinal que o bom tempo anda no ar.

Os amigos gauleses costumam dizer “Couture et peinture sont les occupations de Printemps”.

Eu não sei coser (sei mais ou menos cozer, o que não é a mesma coisa) e muito menos pintar, embora tente dar trabalho a alguns pintores.

Por isso, aqui vai copo. Ou, melhor dito, jarro.

Uma receita para uma sangria à maneira, uma bebida fresca, alcoólica que baste, que nos dê algum conforto nestas tardes de canícula. Ainda ontem , dentro dos vetustos e bafientos corredores da velhinha e mui nobre Sociedade de Geografia (1908) era impossível escapar aos 35 graus com que S. Pedro entendeu bafejar os lisboetas…

Segundo me informei, a origem da palavra associa a cor do vinho tinto à do próprio sangue. E, tirando algumas ideias a partir da zurra valenciana – a sangria branca – é aceitável que atribuamos a origem da sangria, tal como a conhecemos, ao Sul da Península Ibérica, especialmente à Região da Andaluzia e ao nosso Alentejo (com boa vontade).

A sangria das tabernas andaluces está sempre associada às Touradas, à Festa Brava. Este “Sangre de Toro” festivaleiro, estival e aficionado contribuiu também para lhe dar o nome há muitos anos atrás. Tinha uma vantagem naqueles tempos de miséria: era barata de fazer, tinha pouco álcool e podia-se, por isso mesmo, beber à vontade…

Apresento-lhes uma Sangria de Espumante que costumo fazer muitas vezes, sobretudo na Beira Alta, quando somos pelo menos 5 a beber dela:

Sangria de Espumante

2 colheres de sopa de açúcar amarelo

1 pacote de frutos silvestres (podem ser congelados)
2 laranjas (idealmente das sanguíneas)
1 limão (ou lima)
1 maçã ( facultativo)
1 pau de canela
1 garrafa de espumante
1 cálice de Cointreau
3 folhas de hortelã
1 garrafa pequena gasosa ou 7up
sumo de 1 laranja (facultativo)

Colocam-se num jarro grande os frutos silvestres, 1 laranja descascada e partida aos quartos, o mesmo com o limão e a maçã. Juntamos o açúcar amarelo, um pau de canela, duas folhas de hortelã, o licor e o sumo de laranja.

Misturamos tudo com uma colher e na hora de servir despeja-se a gasosa (ou 7up) e a garrafa de espumante, ambas geladas…Podemos decorar com as rodelas da outra laranja e um ramo de hortelã.

Se forem 4 ou 5 convidados utilizem um jarro de 2 L e avancem para o dobre da dose! Vão ver que se bebe todinha…
Agora algumas notas sobre os pormenores. (Nunca devemos esquecer que Deus Nosso Senhor está nos pormenores!):

Maçãs Bravo de Esmolfe, se as encontrarem são belíssimas e de bouquet inestimável! Mas algo doces. Contrariem com mais limão ou lima sff..

Os citrinos (limões, laranjas e limas ) são muito importantes para dar o tom à bebida. Lavem sempre bem e descasquem. Admito que não se descasquem as variedades de casca bem fina. Por norma as rodelas com casca à vista ficam apenas para a decoração final.

O Espumante tanto pode ser um blanc de noirs feito com uvas tintas pelo método tradicional, como um blanc de blancs . Experimentem o Soalheiro de Alvarinho. Contudo , por vezes arrisco fazê-la com um espumante Rosé, dos bons que por aí andam. O bairradino Luis Pato Vinha Formal Rosado é excelente.

Gasosas e Seven Up’s – Tal como o espumante, e ao contrário do vinho tinto que se deita antes para ajudar à maceração da fruta, devem apenas ser entornadas no momento de servir.

Gelo? – Por norma não se põe no Jarro… Apenas no copo se houver necessidade. Mas há quem goste no Jarro, para diminuir a concentração da mistura.

Por fim, há toda a vantagem dos ingredientes estarem frigorificados (incluindo a fruta) pelo menos 24 horas antes de servir

Quando Beber? – Só utilizar uma regra – Nunca às Refeições! Que me desculpem os que a apreciam com as sardinhas, saladas de frango, pastas ou outras coisas estivais… Mas de facto odeio acompanhar a comida com bebidas deste tipo… Fora isso, bebam quando quiserem!

Mas quando sabe melhor é nestes fins de tarde de Verão, fazendo de aperitivo para o Jantar… Aproveitem para abusar de um belo prato de amêndoas torradas.

Manuel Luar