Caracóis, tremoços, pevides e outros “mariscos”, como a lampreia

Ficou célebre a suposta frase do grande Eusébio, recém-chegado a Lisboa, quando inquirido sobre o marisco que mais apreciava com a cervejinha. Teria então dito ao entrevistador que eram os tremoços.

Este mito foi mais tarde desfeito pelo próprio. O que aconteceu na realidade foi que, em Moçambique, Eusébio estava habituado a que lhe servissem um pires de camarão com a “imperial”, sendo que aqui em Lisboa foi surpreendido com o mesmo pires a acompanhar a “lourinha” , mas de …tremoços. Por isso rematou: “o que gosto mais é de camarão, mas aqui dão tremoços…”

É claro que o mito ultrapassou a história e não tardou muito para que se ouvisse pedir nas cervejarias da capital (porventura por adeptos de outros clubes): “Dê-me uma imperial com um prato de marisco d’Eusébio”.

Onde se podem comer estes “mariscos dos pobres”? Obviamente numa cervejaria ou numa tasca. Mas há em Portugal as tascas, as tascosas e ainda existem as tascantes.

Passo a explicar.

Uma Tasca é normalmente exatamente isso, uma tasca.

Ou seja, vendo nos dicionários, trata-se de “estabelecimento onde se serve vinho e refeições ligeiras a baixo preço; o mesmo que  taberna”.

Mas neste estranho país, não sei se por influência gaulesa e na tentativa de traduzir “tasca” por “bistrot”, desataram a chamar “tascas” a coisas de servir refeições que nada têm a ver com a taberna-tasca tradicional.

Quem se entusiasma pelos nomes marialvistas e toureiros, com saudades dos antigos “retiros” e vai parar a locais como “A Tasca da Esquina” ou  “A Tasca Lusa” , ou ainda a “Taberna LXFactory” ou  a “Tasca do Leandro”, pode sair iludido. Já que nunca desdenhando na qualidade apresentada, aquilo são mas é restaurantes e não muito proletários.

Na minha experiência de cliente posso assegurar que ainda existem no nosso país as “tascas” propriamente ditas, que o Blog “Tascas de Portugal” tão bem caraterizava (acabou cedo de mais, infelizmente). Mas estarão em vias de extinção.

Existem também, e infelizmente, aquilo a que chamo as “tascosas”,  que são os estabelecimentos com ares de tasca, mas onde se come mal, se bebe pior e a preços de Gambrinus. Nestes locais confundem-se  as velhas qualidades das tascas antigas: informalidade e  à vontade, com “à balda” e “falta de profissionalismo”. Numa palavra: Tascas horrorosas.

E depois, talvez aquelas que mais frequento, temos ainda as Tascantes.

O  nome resulta da fusão entre “tasca” e “restaurante”, mas envolvendo também os adjetivos “abundante”, “refrescante”, e “pouco pagante”.

O que é uma “tascante”? Um local aprazível e desprovido de sofisticação, onde a comidinha é boa e farta, onde o vinho ou a cerveja são de preços comedidos e servidos a preceito, onde a “malta” se sente bem, sem clubites nem politiquices, sentando-se lado a lado o Presidente do Tribunal Constitucional com o operário remediado que lá vai por um pratinho de caracóis, um prego e  duas bejecas.

Um local onde é possível tirar o casaco à mesa sem olhares inquietos dos vizinhos ou dos trabalhadores…Mesmo estando na companhia de senhoras.

Na prática tanto podem ter no nome “Cervejaria”, como “Restaurante”, como até “Casa de Pasto”. O importante é que o dispêndio de um mortal à mesa ou ao balcão e em refeição de prato, não ultrapasse os 20 euros (bebendo vinho) ou os 15 euros (bebendo cerveja). Ah, e muito importante: Onde as batatas sejam de boa qualidade para cozer ou assar e, sendo fritas, descascadas  mesmo ali em casa!

A qualidade da batata e do vinho faziam a tasca. Lembremo-nos das “Iscas com elas” do abençoado Maravilhas, em Alcântara.

No alto de Cascais – Alvide – recomendo o “Mastro”  que está completamente remodelado, com bela decoração, belas mesas e casas de banho impecáveis. Ali está-se muito bem, com cerveja tirada à maneira e com sugestões do dia a 8 euros (refeição completa) ou com os pratos emblemáticos da casa a 12 euros. Para quem gosta, as tiras de lulas fritas à algarvia são muito boas!

O “Menino Júlio dos Caracóis”  continua a merecer clientes, lá para os lados do Centro de Tratamento de Correios de Lisboa na Rua Vale Formoso de Cima.

Pátria do único (na minha experiência, está claro!) “Bife Aguilho”. Que pelo nome deve ser um bife de um boi que era tocado a aguilhão, lá para Vila Nova de Cerveira…Mas os caracóis são de primeira.

O “Eduardo das Conquilhas” na Parede e a “Adega da Bairrada” na Rua Reinaldo Ferreira em Lisboa, também mereciam visita. E as clássicas “Petiscaria Ideal”  – Santos, Rua da Esperança e “1º de Maio”  . Bairro Alto, Rua da Atalaia.

Agora, para mim uma das melhores tascas de Lisboa e arredores é a TASCA do JOÃO, na Rua do Lumiar.  Tem só um problema: dependendo do que comerem e beberem, tanto podem gastar apenas os tais 20 euritos por cabeça, sobretudo se forem em grupo, porque as doses são avantajadas, como ir por ali acima… Especialmente na altura da Lampreia… Que agora começa.

Estão avisados.

Manuel Luar