Com o Pão fazem-se muitas coisas.

Até já vi esculturas trabalhadas em miolo de pão. A mais conhecida artista que utiliza miolo de pão (pão de “forma”) na sua expressão formal plástica deve ser a polaca Milena Korolczuk, que reproduz nesse material bustos de personalidades do passado e do presente.

Mas no caso presente o que está em causa é a utilização do Pão na alimentação. Nem tanto como parte integrante de um sem número de pratos completos, como já referido noutras crónicas, os “ensopados”, as “migas”, as “açordas” etc… Mas sobretudo como componente vital da aclamada “sandwich”.

A “sandwich” é aclamada por quem tem pressa, por quem não tem bolsos profundos e pesados, por quem chega a casa e quer sentar-se a ver televisão sem perder tempo ao fogão.

Quem tem o crédito da sua invenção, John Montagu, 4º Conde de Sandwhich, também sofria desta doença moderna de querer fazer tudo ao mesmo tempo. Diz a lenda que não desejando levantar-se da mesa de um jogo de cartas (onde presumivelmente estaria a ganhar bem) mandou um criado enfiar-lhe dentro de duas fationas de pão um bife “à maneira”. Inventou a “sandwich” e logo de uma assentada também o “prego do lombo”.

Clássicas bifanas, pregos, francesinhas, sandes de ovo mexido com paio,  e cachorros-quentes. Tudo normal e proletário,  mas se bem-feitas são quase uma refeição das antigas. Mesmo um normalíssimo “hot-dog” pode ser melhorado a partir do bom pão de centeio em cacete, mostarda Colman’s, desde 1814 a “aquecer” as boquinhas, e (obviamente) salsichas alemãs de qualidade – Bratwurst por exemplo.

Um prego do lombo faz-se rapidamente utilizando escalopes do lombo de vaca, nem muito finos nem muito grossos, os quais se espevitam de sal e alho picado, se salpicam de piri-piri, e vão à frigideira alourar dos dois lados. A gordura para fritar é importante. Há quem jure pela manteiga. Há quem prefira a banha (se for de porco alentejano, melhor). A única coisa a evitar será a margarina, que não é mais do que uma invenção demoníaca dos tempos modernos.

O pão a escolher para o prego também não é uma escolha unânime. Desde a moderna “chapata” até às mais antigas “bolas de mistura”, passando por quem prefere o pão em fatia avantajada, cortada a preceito de um “Pão de mafra” ou de um pão de Rio Maior.

Uma das “sandwiches” mais civilizadas de Portugal pode-se comer ao balcão do Gambrinus, em Lisboa, mas também em nossas casas. Trata-se da clássica “Sandwich de foie-gras com pickles”. Pão de centeio barrado com patê de foie-gras, e por cima uns pickles cortados fininhos.

Outra forma de acedermos elegantemente a este universo de comida alternativa, mas que pode ser elegante, é a clássica “sandwich de perna de borrego com agriões”, que necessita de pão de centeio e de boa manteiga para brilhar. Ou ainda a britânica “sandwich de pepino”, tradicionalmente apresentada em pão branco, com manteiga e cortada em forma de pequeno rectângulo (“finger sandwich”) própria para ser consumida durante o chá das cinco.

Ao contrário da “finesse” anterior, apresento também a proletária e almoçadeira “sande” (aqui evito o anglicismo, dado o tom patriótico da coisa) de filete de bacalhau em carcaça. Típica da rua do Arsenal ou da Praça da Figueira. Normalmente quem a come – pondo de parte os turistas que abundam agora naqueles locais –  é a mesma gente do povo que não desdenha a outra face proletária do nosso “ensanduichamento”: a “sande de courato” nas roulottes ao lado de algum estádio, em dia de bola.

E termino falando da grande conquista do pão para a civilização em geral: a torrada.

As torradinhas de pão com manteiga, mais ou menos tostadas, sejam em pão tradicional ou em pão de forma mais modernaço. Fizeram e fazem a alegria de muitos pequenos-almoços mais demorados e são uma forma excelente de começar o dia com um sorriso nos lábios.

Acompanhadas por um bom café. Mas essa é outra história que ficará para mais tarde.

Manuel Luar