Uma vez por semana uma pessoa da cultura ou mesmo um colaborador do Gerador recomenda coisas para fazer em casa. Um filme, um livro, um disco, uma série, uma conta de Instagram e uma das nossas reportagens que vale a pena reler. Hoje é a vez da nossa Raquel Rodrigues Botelho.

A Raquel ainda está à procura da biografia. Não se lembra onde a deixou. Simultaneamente, faz parte da equipa editorial do Gerador.

Fica com as sugestões da Raquel, aqui:

UM FILME

Central do Brasil (1998), de Walter Salles

Disse-me que o amor está no improvável. Assim, também a salvação.

UM LIVRO

Diário, 1941-1943, de Etty Hillesum

Etty é uma jovem judia que lançou o seu diário do comboio que a levava do Campo de Concentração de Westerbork para o de Auschwitz, onde faleceu. O que começou por ser uma proposta do psicólogo, enquanto exercício terapêutico, tornou-se num testemunho de experiência mística e de poesia viva. Não sei apresentá-la e qualquer tentativa seria perdê-la.

Não tenho o livro. Quando cheguei a ele, já estava esgotado. Então, não querendo largar a mulher por quem me apaixonei, fiquei um ano acumulando multas na Rede de Bibliotecas de Lisboa, porque não era capaz de o devolver. O mesmo aconteceu com Simone Weil. Quando a noite caía com mais força, colocava os livros ao lado da almofada para adormecer mais perto daquelas palavras.

De todas estas sugestões, se alguma puder ficar na casa de alguém, desejo imensamente que seja a Etty.

UM DISCO

Abraçar e Agradecer (2016), de Maria Bethânia

Podia ser qualquer um de Bethânia. Todo o corpo canta. É uma presença inteira, carregada de força e de uma beleza imensa. Uma feminilidade poderosa, viril. Vê-la é muito importante para chegar à sua expressão artística. Não se trata apenas de ouvir. Os seus gestos, a mão passando pelo cabelo-nuvem, são o visível que sinaliza o invisível da música.

Podcast

(As sugestões passam pela indicação de uma série, contudo não acompanho nenhuma. Troquei, então, este tópico pela sugestão de um podcast)

Aquele que habita os céus sorri

É o podcast de um amigo, padre e poeta, o António, cujo olhar, amoroso e detalhado, é resistência e revolução na Igreja católica, despistando o centro, trocando-o pela margem. Vai-me abrindo as mãos e mostrando que a relação com o divino é de vazio, ausência e silêncio. Desfez a divisão que eu trazia, entre o sagrado e o profano, o puro e o impuro, o espírito e o corpo. Disse-me que o nojo era o reino escolhido por deus. Conta uma teologia da saúde e a coexistência da flor e da ferida. As reflexões que aqui partilha são para todas/os, independentemente do credo, ou da existência deste.

UMA CONTA DE INSTAGRAM

@theolivetreesandthemoon

A conta de Cat, a protagonista da reportagem que sugiro.

UMA REPORTAGEM DO GERADOR QUE VALE A PENA RELER

Tricotando a vida entre oliveiras e a lua, de Francisco Colaço Pedro

Não conheci o Francisco. Contudo, esta iniciativa das sugestões residentes levou-me ao fundo do baú das reportagens. Levou-me bem longe. Encontrei a coragem e a sabedoria profunda de Cat, uma jovem que se mudou para o campo, constituindo família, acolhendo a dureza que a autossuficiência implica, num diálogo afectivo com a origem. Ergueu o seu próprio abrigo, pariu num curral, vai buscar água a uma mina para tomar banho, estuda as plantas, praticando a sua própria medicina, colhe o que semeia, fotografa e tricoteia, procurando as histórias do lugar onde habita, onde resgata o sentido, a religação. “Somos só mais uma geração a passar por esta casa e por esta terra, dando-lhe amor e cuidado. Há uma sensação superestranha com esta coisa de ser ‘proprietário de terra’. Como poderia isto ser meu? Quantas pessoas e culturas já pisaram este chão?”.

Voltamos para a semana com mais sugestões fresquinhas!

Fotografia de David Cachopo
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