No último dia do ano olhamos para os resultados do Barómetro Gerador Qmetrics 2020 e procuramos analisar algumas das conclusões que importam levar connosco para 2021. Ao realizarmos este estudo num ano tão atípico, pareceu-nos urgente alterar parte das perguntas efectuadas anteriormente, de forma a conseguir reunir dados que dissessem respeito à situação atual, que tanto afectou e continua a afectar a cultura e a relação das pessoas com a mesma.

Foi assim que concluímos que, durante o confinamento, cerca de 60% dos portugueses considerou a cultura como tendo um papel ainda mais relevante do que habitualmente. 80% afirmaram que tal acontecia por ser uma maneira de se obterem novos conhecimentos e 56% por considerarem que a cultura ajuda na compreensão das circunstâncias atuais. Como já referimos anteriormente, estes dados reforçam a concepção que os inquiridos têm de cultura como algo que está mais próximo da educação do que do entretenimento. Para além disso, consideram ainda que a cultura é uma importante ferramenta para a resolução de problemas pessoais e profissionais, atribuindo-lhe uma pontuação média de 7,7 numa escala de 1 a 10 quando confrontados com essa questão.
Indagámos também acerca das perspectivas que os portugueses têm sobre virem a dispôr de mais tempo para a cultura daqui a 10 anos. Quanto mais alto o nível de escolaridade, maior a percentagem de pessoas que afirma vir a ter mais tempo no futuro. No geral, 51% responderam afirmativamente, enquanto que, dentro daqueles com escolaridade superior, foram 61%.

A valorização da cultura por parte dos portugueses surge aqui como evidente, mas vimos também uma crítica ao Estado em relação à resposta dada ao sector durante a pandemia. No estudo realizado entre março e abril deste ano, 53,7% dos portugueses respondeu afirmativamente à pergunta “Globalmente, considera que o Estado português tem disponibilizado os meios financeiros, fiscais e sociais adequados para responder a esta crise?”Mas, já em relação ao sector cultural, 57% consideravam que o Estado não estava a responder adequadamente a esta crise, e, quando questionados novamente em outubro, esta percentagem aumentou para 64%, sendo que apenas 12% consideraram aprovar a ação do Estado quanto à dimensão cultural.

Quando inquiridos sobre a disponibilidade para participarem em iniciativas culturais, à data do questionário de outubro, numa escala de 1 a 10, onde 1 significa nada disponível e 10 muito disponível, os portugueses revelaram estar muito desconfortáveis em ir a festivais de música, concertos e espetáculos de teatro, atividades estas que apresentaram valores médios abaixo de 4. A única atividade com uma média inferior a estas é a ida a discotecas, com 2,4 valores.

Ainda na vaga do Barómetro Gerador Qmetrics de outubro, elaborámos também um cenário hipotético para averiguar quão disponíveis os portugueses estariam para ir aos seguintes locais em abril, depois da população estar vacinada. Numa escala de 1 a 10, apenas o cinema (7,2), o património (7,3), os hotéis (7,6) e os restaurantes (8) têm respostas que demonstram confiança, estando acima de 7. O teatro (6,3), os concertos (6,5), as bibliotecas (6,6) e os museus (6,9) mantêm-se todos abaixo de 7, embora estes últimos se aproximem mais. Isto demonstra que os portugueses precisam ainda de ganhar confiança nas estruturas culturais para que percam o receio de as frequentar num cenário futuro. Constatámos, ainda, que, em eventos com mais de 100 pessoas, os portugueses consideram que cabe a cada um deles o dever de evitar a propagação do vírus, mas 67% considera que essa responsabilidade é também do organizador do evento.

Para 2021, é também importante reflectir acerca de outros aspectos, tais como o esmagador desejo de uma maior presença das marcas na cultura, com 85% dos inquiridos a responder favoravelmente a esta questão. Tendo em conta a forma como percepcionam a cultura, ligada à educação e capaz de fornecer condições criativas para a resolução de problemas pessoais e profissionais, é natural que exijam também um maior esforço por parte das entidades privadas neste desígnio.

No futuro, pode também ser útil pensar na taxa de representação cultural, uma taxa que nos permite perceber quem mostra mais contentamento ou decepção com a cultura feita para o seu segmento etário. A faixa etária 15-19 é a que se sente menos representada, com cerca de 45% dos inquiridos a afirmar que a cultura em Portugal está principalmente pensada para outras gerações que não a deles. É também interessante constatar que apenas cerca de 50% dos inquiridos sente que a cultura está pensada para todas as gerações. Posto isto, analisámos ainda que, quando inquiridos sobre quais seriam as razões para não quererem consumir mais cultura, a falta de oferta específica surgiu como um dos motivos mais significativos, para além, obviamente, da falta de tempo.

Relembramos ainda que Ruy de Carvalho (representação), Xutos e Pontapés (música), Joana Vasconcelos (artes plásticas), Manoel de Oliveira (cinema) e José Saramago (escrita) reforçaram este ano as suas posições enquanto principais referências nas respetivas áreas, mas vimos ainda surgir novos nomes no Top 10 geral, como Vhils (artes plásticas) e Diogo Piçarra (música), e, entre as faixas etárias mais jovens, Clara Não (artes plásticas), Capitão Fausto (música), e Carolina Loureiro (representação). 2020 foi também o primeiro ano em que analisámos a categoria do humor, onde o primeiro lugar pertenceu a Ricardo Araújo Pereira.

O Barómetro Gerador Qmetrics é um estudo anual que analisa a opinião dos portugueses sobre a cultura. Realizado pela primeira vez em 2019, o âmbito do questionário deste ano incidiu, principalmente, nas consequências da pandemia na sociedade e na cultura. Sabe mais sobre o relatório de 2020 aqui e pede o teu relatório completo aqui.

Síntese Ficha Técnica
O universo do estudo é constituído por indivíduos com idade igual ou superior a 15 anos, residentes em Portugal Continental e Ilhas. A Amostra, com 1.201 entrevistas validadas, foi estratificada por região, sexo e escalão etário, em Portugal Continental, e por Ilhas, e distribuída em cada estrato de acordo com a repartição da população alvo em cada estrato. As entrevistas foram realizadas de 20 de abril a 7 de maio de 2020, através de um questionário aplicado online utilizando o método CAWI (Computer Assisted Web Interview). Os resultados são apresentados com um nível de confiança de 95%. A margem de erro para a média na escala 1 a 10 é de 0,15 pontos e a margem de erro para a proporção é de 2,83 pontos percentuais.