Uma vez por semana uma pessoa da cultura ou mesmo um colaborador do Gerador recomenda coisas para fazer em casa. Um filme, um livro, um disco, um espetáculo, um podcast, uma conta de Instagram e uma das nossas reportagens que vale a pena reler. Hoje é a vez da nossa Clara Amante.

A Clara não sabe muito bem o que faz, algo que, por vezes, a inquieta (por exemplo, quando lhe pedem bios), mas também gosta da liberdade que isso lhe dá para fazer um pouco de tudo. Atualmente, integra a equipa de Produção do Gerador, onde começou a trabalhar em 2016. Entretanto, andou a saltitar pela Europa, mas no fundo nunca deixou realmente este projeto em que tanto acredita. Lá por fora, trabalhou no International Queer and Migrant Film Festival, em Amesterdão, e no projeto Youth Artivists for Change. Agora, está de volta a Lisboa, cidade que conhece desde que nasceu, mas onde ainda se perde com frequência.

Fica com as sugestões da Clara, aqui:

UM FILME

Terra Franca, de Leonor Teles

Leonor Teles partiu da relação profunda entre Albertino Lobo, pescador, e o rio Tejo para explorar não só a sua ligação à água, mas também à terra, à comunidade, e, sobretudo, à família. Um testemunho intimista de uma dinâmica familiar que envolve várias gerações e deixa transparecer a habilidade de Leonor para escutar, bem como para se deixar conduzir pelas próprias histórias que filma.

Faço uma menção especial ao retrato da Festa da Santa dos Avieiros, que me trouxe a casa o bailarico e a sardinha assada, numa altura em que se avizinham uns Santos Populares tão atípicos.

UM LIVRO

Racismo no País dos Brancos Costumes (2018), de Joana Gorjão Henriques

Tal como Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Quotidiano de Grada Kilomba (que já foi aqui sugerido pela Margarida), este livro é uma importante ferramenta para o entendimento do racismo enquanto problema social, institucional e estrutural. São cerca de 80 as vozes que se reúnem nestas reportagens, deixando bem claro como esta questão é urgente também em Portugal.

UM DISCO

Goela Abaixo, de Liniker e os Caramelows

Um disco que fala do poder do afeto, do cuidado, da paciência e da intimidade. Ótimo para ouvir num dia de sol à janela, ainda por cima acompanhado do trabalho da artista plástica Domitila de Paulo, que ilustra o álbum.

Curiosamente, Liniker gravou algumas das faixas descalça em sua casa, e, durante o tempo que tenho passado na minha, esta tem sido uma banda sonora muito presente.

UM ESPETÁCULO

“E se elas fossem para Moscou?”, de Christiane Jatahy

Aproveitei a deixa das sugestões da semana passada para sugerir também um espetáculo. Trata-se duma dupla experiência: numa sala é uma peça de teatro, e, na sala ao lado, um filme. Uma obra que questiona fronteiras, entre atores e público, realidade e ficção, teatro e cinema, utilizando elementos distintos que se complementam para nos falar sobre a relação humana com a mudança. Christiane Jatahy tinha um espetáculo em junho no São Luiz, que, naturalmente, foi suspenso, mas tenho esperança de que a voltemos a ter por cá em breve :-)

UM PODCAST

Literary Friction, de Carrie Plitt e Octavia Bright (em inglês)

Por norma chego às séries boas sempre depois de toda a gente, portanto, em vez disso, deixo aqui um podcast.

Sendo sobre livros, consegue a proeza de não me deixar ansiosa por não ler nem metade daquilo que gostaria. Conversas que vão para além da literatura, mas que, ao mesmo tempo, me têm feito pensar sobre todas as coisas que cabem no ato de ler.

UMA CONTA DE INSTAGRAM

@queeringthemap

O Instagram é o @queeringthemap, mas (batota) o que quero realmente recomendar é o site deste projeto. Ganhei recentemente um fascínio por mapas enquanto objetos que representam diferentes versões do mundo e o objetivo deste é associar ao espaço geográfico histórias que são muitas vezes marginalizadas e invisibilizadas nos lugares onde ocorrem. A natureza colaborativa do projeto permite que qualquer pessoa contribua com as suas próprias memórias, em qualquer parte do mundo :-)

UMA REPORTAGEM DO GERADOR QUE VALE A PENA RELER

“A lusofonia como espaço de reconstrução da memória coletiva”, por Andreia Monteiro e Ricardo Gonçalves

Uma reportagem pelxs sempre pertinentes Ricardo e Andreia, que aqui nos apresentam uma reflexão a várias vozes acerca da importância da pluralidade, do coletivo e da descentralização na noção de lusofonia, evidenciando a sua indispensável natureza «multifónica» e a necessidade de uma memória coletiva que diga respeito a todxs.

A lusofonia como espaço de reconstrução da memória coletiva

Voltamos para a semana com mais sugestões fresquinhas!

Fotografia de Carlota Real
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