No passado dia 31 de maio, na abertura oficial da Central Gerador ao público, foi inaugurada a Exposição Insties Gerador 2019, em parceria com o Clube Criativos de Portugal, no novo espaço do Gerador do Lumiar e contou com 9 obras dos 9 vencedores dos Prémios Insties Gerador 2019, em volto do tema do medo.

Durante o ano de 2018, o Gerador procurou quem mais se destacou no Instagram em Portugal, e, no dia 26 de janeiro, foram anunciados os vencedores de cada categoria.

Através de imagens fotográficas e de arte digital, @alexcoelholima, @davidaba, @hey.luisa, @joao.galamba, @joaok2, @lceusebio, @luc_at_the_world, @martanferreira e @matilde__cunha, foram desafiados a representar visualmente os seus medos, acompanhados de textos que refletem o conceito de cada obra.

No final da tarde de sexta, muitos foram os que se juntaram para além dos portões verdes da parte de trás da Junta de Freguesia do Lumiar, na Central Gerador, para mais que uma visita à exposição, um convívio entre apreciadores de arte e apoiantes dos artistas. “A diversidade está aqui”, foi a observação consensual dos presentes. De facto, os 9 desafiados fizeram o que melhor sabiam e representaram uma parte de si ao mundo, desta vez em formato palpável. @hey.luisa, vencedora da categoria Dr. Bayard Melhor Arte, disse-nos que “dá logo outra dimensão, porque é muito diferente daquilo que nós enquanto instagrammers estamos habituados, que é ver milhares de imagens digitalmente, e nós aqui podemos vê-las e dá logo outra sensação, dá outra dinâmica poder estar aqui e olhar num espaço e, ainda por cima, ver estas nove todas juntas”.

Exposição Insties Gerador 2019 pela lente de ©Diana Mendes

Misturada com os restantes, @martanferreira, vencedora da categoria Fujifilm Melhor Instagramer, acrescenta ainda que “os veículos de comunicação são diferentes e o conjunto de pessoas que está aqui, que são instagrammers e comunicam muito para o Instagram e já sabem os gostos do público, e é aquela coisa do like pelo like e o retorno que nós temos acaba por ser esse, aquela coisa da fração de segundo. Passamos pelas imagens damos o like, e quando passamos os trabalhos para uma exposição, já não está lá ‘não sei quantas pessoas gostaram’, e aí é que nós temos o feedback mais verdadeiro, porque não é aquela coisa tão instantânea, aquela coisa de estar ali a disparar likes que acontece muito que as pessoas dão porque dão, porque seguem ou porque não sei quê e que, às tantas, não se sabe muito bem até que ponto é que o trabalho é efetivamente apreciado e o que é que é efetivamente a opinião das pessoas. E o que eu noto, também não tenho muita experiência expositiva, também só fiz uma exposição coletiva uma vez, mas o que eu noto é que o feedback é completamente diferente. As pessoas veem as coisas de outra maneira, pensam as obras de outra maneira especialmente nestes casos quando são acompanhados de uma legendagem um bocadinho mais complexa acho que apreendem a informação de outra maneira e dão-se ao trabalho de pensar sobre as coisas mais um bocadinho”.

@martanferreia na Exposição Insties Gerador 2019 pela lente de ©Diana Mendes

“me·do |ê| 1

(latim metus, -us)

substantivo masculino

  1. Estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça, reais, hipotéticos ou imaginários. = FOBIA, PAVOR, TERROR
  2. Ausência de coragem (ex.: medo de atravessar a ponte). = RECEIO, TEMOR ≠ DESTEMOR, INTREPIDEZ
  3. Preocupação com determinado facto ou com determinada possibilidade (ex.: tenho medo de me atrasar). = APREENSÃO, RECEIO
  4. [Popular] Alma do outro mundo. = FANTASMA”, retirado do dicionário online da Priberam, é o texto que acompanha o trabalho de @matilde__cunha, vencedora da categoria Melhor Retrato.

O medo é algo que nos é inerente, mas será uma coisa de criança ou uma bagagem que levamos para a vida adulta?

Para @lceusebio, o vencedor da categoria CCP Melhor Foto Criativa, falar dos próprios medos “foi uma coisa que nunca tinha pensado muito até me desafiarem para a exposição. Até tive alguma dificuldade em me identificar. Todos temos medos, eu tenho, mas não é algo em que viva sobre eles, ou que eles me impeçam de viver. Por isso, só tenho medo quando eles surgem.” Tal como a diversidade representava a exposição, cada artista via o medo como algo pessoal, mas sempre muito conscientes da sua posição nas suas vidas.

“Tipicamente fala-se [do medo] da morte [quando somos adultos], é uma coisa que assumo com naturalidade, portanto vai acontecer algum dia, mas talvez o medo que tentei representar na fotografia seja o que eu tenho mais, que é de ser impossibilitado de mover e perder mobilidade. [As] armadilhas de pesca fizeram-se associar o medo da perda de mobilidade e de perder aquilo que mais gosto que é viajar e conhecer o mundo”, contou-nos @joaok2. vencedor da categoria Melhor Foto.

 

@joaok2 na Exposição Insties Gerador 2019 pela lente de ©Diana Mendes

Paralelamente, @martanferreira acha “que o medo é uma coisa de criança que nós vamos aprendendo. As crianças crescem e nascem com muitos medos. Nós quando somos crianças temos medo do escuro, também somos muito afoitos, mas temos alguns medos e que nos acompanham ao longo da vida e que arranjamos as tais ferramentas para os ultrapassar. Depois acabamos por nos deparar com outros, maiores e mais complexos, alguns conseguimos abandonar ao longo da vida e conseguimos ir despejando a mochila, e outros vamos ganhando. Acho que é uma coisa faseada, acho que há medos que nos acompanham, há medos que abandonamos, há medos que criamos, depende muito da fase em que estamos na vida.”

@hey.luisa diz-nos que as artes em geral “são terapêuticas, ajudam-nos a entender a nós próprios, ou seja, a entender os nossos próprios medos, também quem sabe curá-los.” Em relação ao desafio, explica ainda que “enquanto ‘artista digital’, gostei do desafio criativo, porque criei uma imagem específica para esta exposição e gostei. Não é algo que me perguntam todos os dias ‘qual é o teu maior medo? Cria uma imagem com um dos teus maiores medos.’ E ter essa oportunidade, para mim, enquanto artista, foi espetacular, deu para quebrar algumas barreiras e explorar algo novo para mim, fugir ao meu estilo normal, um lado mais honesto talvez.”

@hey.luisa na Exposição Insties Gerador 2019 pela lente de ©Diana Mendes

No texto explicativo do conceito da sua obra, @joao.galamba, vencedor da categoria Worten Melhor Mural, admite que “os murais do Instagram estão inundados de (auto)-retratos dos seus próprios autores e, nesse mundo que gira à volta das selfies e da ‘cultura do eu’ sinto-me, por vezes, um outsider. Vivo do lado de trás da câmara fotográfica e receio que sem recurso à minha imagem as minhas fotos sejam invisíveis.”

Este desafio, para além de puxar os criativos a refletirem sobre o assunto, leva-os igualmente a tentar enfrentar os próprios medos. Acompanhando a obra de @alexcoelholima, vencedor da categoria Melhor Conteúdo Nacional, o próprio admite: “medos? Alguns, mas apenas um mexe profundamente comigo: medo de gatos. Começou cedo, na infância, mas sem motivo aparente. Desde aí, a presença de um gato nas proximidades altera-me o ritmo cardíaco. Colocarem-me num quarto fechado com um gato seria a pior tortura. Por várias vezes, tentei ultrapassar esta fobia, mas sem sucesso, irá morrer comigo! Daí também a dificuldade em fotografá-los. Apenas possuo duas fotos e a que me exponho tem cerca de 4 anos. Foi um ‘disparo’ muito rápido com poucas preocupações técnicas. Chamou-me à atenção o contraste do branco do gato e a envolvência colorida.”

 

Exposição Insties Gerador 2019 pela lente de ©Diana Mendes

Os medos têm diferentes cores, formas e cheiros, mas podem também surgir em momentos inesperados. A obra de @luc_at_the_world, vencedora da categoria World Academy Melhor Foto Minimalista, mostra que há ainda medos maiores que nós mesmos: “a acqua alta é um fenómeno de subida de nível das águas que combina adversidades naturais – marés e ventos – e não tão naturais – o degelo causado pelo aquecimento global, a pressão das infraestruturas devido a um turismo massificado e a modificação de cursos dos leitos de rios para passagem de grandes cruzeiros, desequilibrando os ecossistemas lacustres.” Acrescenta ainda no final, entre parênteses, “escapei”.

Questionado sobre o sentimento de ver o seu trabalho exposto, juntamente com o dos restantes vencedores, @davidaba, vencedor da categoria Altano Instagramer a Seguir em 2019, afirma que “é gratificante e valorizo bastante os trabalhos destes amigos, quer dizer, colegas, não sei qual é o adjetivo que lhes possa dar, mas pessoas que admiro imenso, a Luísa, a Matilde, a Marta… é super gratificante ver que todos trabalhámos um tema que no meu trabalho é bastante recorrente”. Após algumas emoções, num simples adjetivo, o instagrammer definiu ainda o conjunto de trabalhos como “honesto, porque acho que o ser humano tem muito medo de dizer e admitir os próprios medos, por isso acho que é um bocadinho uma barreira que se passou, talvez. Acho que é muito honesto e cru admitir aquilo de que temos medo e pode até ser difícil.”

@davidaba na Exposição Insties Gerador 2019 pela lente de ©Diana Mendes

Tanto para @lceusebio como para @joaok2, verem as suas obras expostas é “gratificante”. “Acho que o resultado fala por si, tenho aqui uma coleção com vários artistas e por estar presente faz-me também sentir, fazer parte do Gerador e desta família”, acrescenta @lceusebio.

Para @hey.luisa, a surpresa da exposição foi ver que os 9 medos, os 9 trabalhos individuais, “são muito diferentes uns dos outros. Estava à espera que [assim] fossem, mas é muito engraçado ver como é que cada autor fala do seu medo e o associa a uma imagem. Que é dessa ligação entre o medo e a imagem que depois a olhar para essa mesma imagem, temos uma interpretação completamente diferente. Acho que é uma exposição super interessante e não é um tema muito comum. As pessoas não falam, não costumam expor esse lado mais vulnerável, não tão frequentemente, e é muito interessante ver como é que o medo pode ser diferente para cada pessoa, tanto a nível de texto, mas especialmente a nível visual. Dá para ver a personalidade de cada um. Eu não conheço bem toda a gente, alguns já conheci pessoalmente, outros conheço só o trabalho através das redes sociais, já há anos, e é muito, muito interessante ver a ligação entre a parte visual e a parte mais vulnerável de cada um.”

Entrada da Exposição Insties Gerador 2019 pela lente de ©Diana Mendes

De quarta a domingo, entre as 12 e as 24 horas, a Central Gerador acolhe todos os visitantes que queiram dar uma vista de olhos à Exposição Insties Gerador 2019.

 

Texto de Rita Matias dos Santos
Fotografias de Diana Mendes

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